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Um celíaco na China – como viver sem glúten no País do Meio.

Hoje quem escreveu o artigo que vocês vão ler não fui eu! Depois de ver uma postagem da Mariana (que é celíaca e vive em Chang Chun, norte da China) no Facebook, pedi se poderia compartilhar as fotos dos produtos que ela encontrou, pois isso poderia facilitar a vida de muita gente e, principalmente, acalmar o coração de quem chegou ou está para vir morar na China.

A Mari fez mais que isso: além de me enviar todas as fotos, ainda escreveu um lindo depoimento contando sua história. Não havia como fazer diferente. Resolvi publicar seu relato na íntegra.

Mesmo para quem não é celíaco, mas busca uma alimentação mais balanceada, esse artigo tem informações preciosas.

Agora, acho que ele serve mesmo é para mostrar que somos os únicos responsáveis pela nossa adaptação, seja onde for. E para provar isso, o depoimento da Mariana é perfeito!

O texto ficou longo, mas garanto que vale à pena!

Sobrevivendo na China

Por Mariana Tonietto Marques

O título parece um pouco assustador. Não, sobreviver na China não é nada fora do comum, eu diria até que muitas pessoas fazem tempestade em copo d’água e terrorismo psicológico. Porém, como muitos expatriados pelo mundo já sabem, sair da sua zona de conforto no seu país nativo é uma experiência incrível e ao mesmo tempo assustadora. Ainda mais num país como a China, pois, além do choque cultural, existe a barreira linguística quase que intransponível.

Para portadores da doença celíaca (e de outras intolerâncias alimentares), aprender certas coisas e encontrar os produtos certos, transpondo as barreiras cultural e da linguagem, torna-se sim, uma questão de sobrevivência, mas, após a adaptação, tudo se torna mais fácil e os problemas quase que desaparecem. O quanto difícil será essa adaptação e a transposição de barreiras vai depender do quanto disposta a pessoa está a encarar os fatos de frente.

Para quem nunca ouviu falar da doença celíaca, ela é auto imune e o portador é totalmente, e para sempre, intolerante ao glúten (proteína presente no trigo, centeio, cevada, aveia e malte).  Para essas pessoas, comer algo contendo uma fração de glúten, além de degradar as vilosidades intestinais, desencadeia uma série de sintomas como fadiga, dores no corpo, turvação visual, entre muitos outros. Não vou me deter aos sintomas para não tornar o post muito longo, mas quem quiser obter mais informações, visite o site da ACELBRA.

Quem não for portador da doença não precisa parar por aqui, pois após fazer um pequeno resumo da minha história com a China e fornecer informações para celíacos, vou compartilhar diversas descobertas de produtos que podem ser úteis para qualquer pessoa que procura certas coisas comuns no Brasil e não encontra na China, e numa cidade realmente chinesa, ou seja, você raramente encontra pessoas que falem inglês ou que sabem o que é glúten e/ou alergia alimentar.

Como tudo começou

Até dezembro de 2014 eu não tinha nem ideia de que era portadora da doença celíaca e jamais imaginava que iria morar no exterior, muito menos na China. Estava curtindo a minha maternidade em paz, até que passei mal após comer um pastel e fui parar no hospital. Após alguns meses de tentativas e erros em hospitais, eu acabei desconfiando da doença celíaca, pois tinha familiares nesta condição. Procurei um gastroenterologista e falei sobre essa desconfiança e, como tantos outros casos que conheço, não fui muito levada a sério. Acabei trocando de médico diversas vezes, até que fossem solicitados os exames corretos: biópsia intestinal e teste genético HLA-DQ2 e HLA DQ8. Fiz questão de destacar, pois comumente se pedem outros exames que para mim apresentaram resultado falso negativo. Com 30 anos, eu estava sendo diagnosticada celíaca, após ter um nível de degeneração intestinal super avançado.

Durante todo o ano de 2015 fiquei muito doente e minha vida social praticamente desapareceu. Somente em fevereiro de 2016 comecei a ter sinais de melhora, após encontrar um anjo chamado Dr Nutianne Schneider, que cuidou da minha saúde e não desistiu do meu caso. Fiz duas cirurgias, imunossupressão e, em meio à essa turbulência da doença, meu marido recebeu a proposta de atuar na Chinese Super League (ele era fisioterapeuta do Grêmio Football Portoalegrense, até então).

Apesar do meu marido ter um emprego excelente e eu ter a minha carreira, que mantinha mesmo com a doença, sempre sonhamos em viver uma cultura diferente. Decidi colocar nas mãos de Deus, encarar com positividade, não me colocar em posição de vítima, e embarcar nessa aventura. Seguimos com ambos os planos: meu tratamento e o acerto do contrato dele no Changchun Yatai Football.

Concomitantemente ao tratamento, comecei a pesquisar sobre a cidade de Changchun. Afinal, além de saber como era a vida na cidade, no meu caso em específico necessitava de um planejamento adicional, já que para mim a comida certa (sem glúten) era, e ainda é, uma questão de sobrevivência.

Dei uma pesquisada no Google com os unitermos “Changchun” + “Brasil” e encontrei a Christine e seu blog, afinal, ela já morou em Changchun antes de se estabelecer em Shanghai. Desde então, bombardeei ela com inúmeras perguntas sobre Changchun e a China. Ela e seu blog me ajudaram muito, me tornei leitora assídua e sempre serei eternamente grata por tudo que ela compartilhou e ainda compartilha. Eu também perguntava para ela coisas do tipo “tem polvilho na China?” E ela, super prestativa, procurava para mim e me tranquilizava.

Mariana e sua família – arquivo pessoal.

Chegando em Chang Chun

Apenas 4 meses depois do primeiro contato com a Chris, aqui estava eu, em Changchun, com minha doença estabilizada, dentro de um supermercado, num país onde não existe lei do rótulo que obrigue a informar o que contém ou não contém glúten. Afinal aqui a doença é praticamente desconhecida e rara.

Quase saí chorando do supermercado, com tontura por conta de tanta informação incompreensível. Me senti como se fosse analfabeta, o que não deixa de ser verdade, afinal aqui em Changchun e outras cidades super tradicionais, todos que não falam mandarim vivem como analfabetos. Ninguém sabia o que era glúten, nem ao menos sabiam o que eu falava já que não compreendiam inglês. E eu tinha suprimentos para aproximadamente 30 dias.

Em último caso, eu viveria somente de frutas, verduras, arroz e carnes, que são 100% seguros. E jamais comeria em restaurantes, já que estava num período muito delicado da minha doença. E também não seria o fim do mundo, afinal, me considero com muita sorte já que minha doença é a única doença auto imune que se tem controle absoluto, pois o agente causador é conhecido, basta não comer glúten.

Eu tinha então duas opções: desistir ou tentar me adaptar.

Não sou o tipo de pessoa que desiste de nada, então me dediquei a tentar pelo menos aprender a falar e ler em mandarim aquilo que poderia me deixar doente e que poderia constar nos rótulos. Assim,”caçava” as palavras na lista de ingredientes. Primeiramente, precisei saber aonde estavam os ingredientes. Na minha ignorância à língua chinesa, tratei de procurar o “pX” ou o “5 invertido”, pois assim que eu enxergava as palavras que significam ingredientes em mandarim:

成分 (chéng fēn) / 配料 (pèi liào).

E, dentro da lista de ingredientes, “caçar” o que contém glúten:

小麦 (xiǎo mài): trigo

黑麦 (hēi mài): centeio

大麦 (dà mài): cevada

燕麦 (yàn mài): aveia

面粉 (miàn fěn): farinha de trigo

面筋 (miàn jīn): gluten

麸质 (fū zhì): outra maneira de escrever gluten

Por experiência pessoal, quando compro algum produto, procuro sempre primeiro pelas palavras mais frequentes, ou seja, 麦 (mài) e 面 (miàn). E depois olho o restante e vejo se identifico que se trata de um cereal com ou sem glúten, de acordo com a lista acima.

Glúten em si nunca vi escrito em rótulos, mas não custa olhar. Já que aqui na China não existe lei do rótulo, conto com a sorte de não conter traços significativos de glúten no alimento em questão, considerando contaminação cruzada. Se me sinto mal, da próxima vez não como mais aquele alimento, porém isso raramente acontece.

Ao que parece, devido a grande demanda e baixo custo operacional da indústria alimentícia na China, imagino que as fábricas não compartilhem maquinário na produção. E acredito que esta teoria faça sentido, já que fui ao Brasil e refiz a minha biópsia intestinal em fevereiro de 2017 e estava muito melhor do que quando saí do Brasil. Porém, cada um se adapta como melhor lhe convém. Eu optei por viver com mais liberdade e correr alguns riscos de consumir produtos que não contém glúten informado no rótulo, porém podem talvez conter traços de glúten. No meu caso, não tive problemas.

Já quando o assunto é restaurante, é bom entender um pouco de como é o preparo dos alimentos aqui na China.

Vale lembrar que Shoyu (酱油 – jiàng yóu) e Molho de Pimenta Preta (黑胡椒酱 – hēi hú jiāo jiàng) são utilizados em praticamente todos os pratos chineses e, infelizmente, ambos contém trigo na composição. Na minha opinião, é o que mais inviabiliza comer fora de casa.

No entanto, treinando um pouco, basta pedir comida sem o que eles usam na cozinha: trigo, farinha de trigo, shoyu e molho de pimenta preta. Ou seja, basta falar: 没有 (méi yǒu), ou seja, “não tem”, seguido do ingrediente:

没有 小麦 (méi yǒu xiǎo mài),

没有 面粉 (méi yǒu miàn fěn),

没有 酱油 (méi yǒu jiàng yóu),

没有 黑胡椒酱 (méi yǒu hēi hú jiāo jiàng).

E ainda, peço sem cerveja, pois vai que eles utilizem cerveja para cozinhar algum prato como marinar carnes: 没有 啤酒 (méi yǒu pí jiǔ).

Aveia, centeio e cevada eu nem cito, pois aqui não se usa esses ingredientes para cozinhar. Existe o glúten free card, disponível neste site, mas, por experiência pessoal, percebi que nem adianta mostrar, pois eles ignoram ou olham muito rapidamente, sem dar a atenção necessária. Falar (ou colocar o tradutor do celular para falar) fica mais fácil de ser compreendido.

Bom, com a faca e o queijo na mão, além de me arriscar em alguns restaurantes (Korean Barbecues, Hot Pots, Hotéis Internacionais, Sushi levando “shoyu” de casa), virei uma leitora compulsiva de rótulos e passei a procurar por produtos que eu consumia no Brasil. Afinal, viajar sozinha com minha filha de 3 anos carregando uma mala gigante só de comida, além das nossas de roupas não é nada agradável.

Com isto, fui selecionando produtos que poderia encontrar aqui na China para não precisar carregar ou importar. O interessante é que muitos desses produtos são úteis para pessoas que não são alérgicas a glúten e também os procuram. Vejo muitos falando “não tem feijão na China, não tem tapioca, polvilho, polenta, maizena”. Na verdade existe tudo isso.

Produtos sem glúten na China

Então, finalmente, vamos aos meus achados. Posso afirmar com veemência: existe TUDO na China. Na pior hipótese, se não tem nos mercados, tem no TaoBao.

Alguns achados que compartilho contém o nome em inglês, mas mesmo assim fiz questão de incluir o nome e onde encontrar para ficar mais organizado. É só clicar na imagem que ela aumenta.

Se não encontrar o mesmo produto da mesma marca, basta ir até algum atendente do mercado e falar: “有没有 (yǒu méi yǒu)” (que significa “tem ou não tem”) e mostrar a foto, já que contém o nome em chinês do produto e certamente haverá o mesmo de outra marca.

No polvilho, coloquei receita de goma de Tapioca, pois poucos sabem, mas é super simples fazer a goma em casa a partir do polvilho doce.

Espero sinceramente ter ajudado outros expatriados. Obrigada Christine pela oportunidade de compartilhar em seu blog a minha experiência pessoal. E se alguém precisar de ajuda adicional, me procure no WeChat (mtmariana) que posso ajudar com receitas sem glúten, dicas extras, incluir em grupos de celíacos expatriados, etc.

E no final…

Bom, gente. No final, espero que essas informações ajudem muita gente que está vivendo desse lado do mundo. Seja com as descobertas de produtos saudáveis, seja com aquela sensação de se olhar no espelho e dizer: se ela conseguiu, porque eu não vou conseguir?

Obrigada Mari, por compartilhar a sua história!

E venham, sempre de coração e mente abertos. A China é realmente uma caixinha de surpresas!

E você? Tem alguma experiência para dividir? Entre em contato, vamos nos juntar para tornar a vida de todos aqui muito melhor!

Zài Jián!

 

  O livro China na minha vida – o que aprendi com o Dragão, pode ser adquirido aqui.

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7 pensamentos sobre “Um celíaco na China – como viver sem glúten no País do Meio.

  1. No outro dia comprei cuscuz q nao era d trigo,embora tivesse o mesmo aspecto e me disseram dpois ser d arroz foi numa loja d muculmanos ao pe da mesquita em Guangzhou.

    Curtido por 1 pessoa

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