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Livro: Garotas da Fábrica – Da aldeia a cidade, numa China em transformação.

Esse mês minha leitura sobre a China foi o livro de Leslie T. Chang – Garotas da Fábrica.

Um livro que surpreende, pois ela conta a história de vida de várias moças que foram a força propulsora da economia chinesa nos últimos 30 anos. Sem apologias, nem para o bem, nem para o mal, a autora descreve  como ocorreu a  migração de milhares de jovens chinesas que saíram da zona rural, onde não havia nenhuma expectativa de mudança, para desbravar o mundo desconhecido das fábricas chinesas durante os anos de 1990 e 2000.

Os relatos envolvem rapazes também, sempre como coadjuvantes, mas é impressionante de se notar a força e a garra das mulheres desse país, que vai muito além do que as próprias podem imaginar. As próprias fábricas davam preferência às moças por serem mais proativas. E isso não deixa de ser um paradoxo, em uma sociedade onde ter um filho homem é sinônimo de glória.

“Só posso contar comigo mesma”

Em especial, Leslie acompanha a trajetória de duas moças: Min e Chunming, que ilustram bem como era a vida dessas pessoas, numa fase de transição da China, um país tão fechado e preso às tradições. Essas moças buscavam por liberdade, fortuna (que a maioria não encontrava) e a possibilidade de desbravar o mundo através da ascensão social.

Numa época de abertura, onde havia uma grande nuvem de fumaça entre o que era certo e errado (tanto do ponto de vista ético como moral),  tudo isso funcionava de maneira bem confusa e desregrada. E mesmo assim, a China chegou onde podemos ver hoje em dia.

Esse livro, me fez voltar à época em que meu marido veio para a China e foi trabalhar numa fábrica em Chang Chun – muitas vezes ele descrevia as coisas que aconteciam, o comportamento dos operários (e a quantidade de moças que buscavam uma colocação na fábrica), a maneira como as situações eram conduzidas… E ele nada entendia. E nem poderia, chego a essa conclusão após essa leitura.

O que se passava na cabeça daquelas moças, o que elas queriam alcançar e os métodos que utilizavam jamais faria sentido aos olhos de um estrangeiro no inicio dos anos 2000.

O livro foi publicado em 2010, a autora fez sua pesquisa de 2004 a 2007. Posso dizer que muita coisa mudou na China dessa data até os dias de hoje, mas acredito que muito dessa ingenuidade e perspicácia ainda continuam presentes, uma ambiguidade tão comum para quem conhece a China um pouco mais a fundo.

E o que os relatos mostram, da primeira a ultima página do livro é a maneira como elas encaravam a sorte ou o revés: “Só posso contar comigo mesma”.

foto da capa do livro.

foto da capa do livro.

História pessoal

O que é pouco citado nas resenhas que li sobre o livro, é que Leslie Chang, americana, filha de chineses, também veio buscar a história da sua própria família e há alguns capítulos, com os relatos de seus parentes próximos (ou nem tanto) que ficaram na China, se mesclam com os dos relatos da ‘Garotas da Fábrica’. Assim ela também tenta reconstruir a história que ficou esquecida pelos seus pais e tios que saíram do país, que também migraram com outros objetivos, outras necessidades, outras perspectivas, mas para ela foi um ponto comum entre todas as histórias relatadas no livro.

A sinopse que encontrei nos websites de livrarias:

‘As garotas da fábrica’ procura demonstrar como o movimento da população rural para as grandes cidades tem alterado o rumo de trajetórias individuais, o destino de famílias inteiras, e transforma a sociedade chinesa. Leslie Chang retrata essa realidade por meio da trajetória de duas jovens que buscavam ascensão social nas linhas de montagem das fábricas de Dongguan, cidade industrial do sul do país. Faz uma exposição do universo dos migrantes – das gigantescas fábricas com cinema, hospital, e corpo de bombeiros próprios, aos bares de karaokê que funcionam como fachadas para a prostituição. Este livro apresenta como se desenvolvem as relações pessoais, profissionais e as estratégias de ascensão dos migrantes que incluem cursos de inglês com treinamentos militares e resultados duvidosos; a indústria da auto ajuda e das aulas de aperfeiçoamento social; e a realidade dos vilarejos rurais, cuja pobreza e inatividade levam os mais jovens para longe de casa.’

O livro foi publicado pela editora Intrínseca (que disponibiliza o primeiro capítulo em PDF), e está esgotado na maioria das livrarias que pesquisei. Em sites de livros usados existem exemplares à venda.

Uma excelente leitura, mas tem que se levar em conta que não representa mais a realidade de hoje em certos aspectos. Muita coisa mudou na China nos últimos 10 anos.

Já leu esse livro? Deixe aqui seu comentário.

Recomenda algum outro título sobre a China? Conta para a gente.

Ah… hoje faz 2 anos que me casei na China! Não sabia? Confere aqui, meu casamento chinês.

Zái Jiàn!

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8 pensamentos sobre “Livro: Garotas da Fábrica – Da aldeia a cidade, numa China em transformação.

  1. Pingback: Livro – ‘As Rãs’ | China na minha vida

  2. Oi Christine. Que interessante, ontem vi um documentário que se passa de 2006-2008, sobre essa migração, focado na história de uma família onde os pais foram pra cidade tentar uma vida melhor pra oferecer mais condições e estudos aos filhos, enquanto os filhos ficaram com a avó na zona rural. Mostra a filha mais velha se ressentindo porque não foi criada pelos pais e se sente distante deles, assim como seu desejo pela “liberdade” através do trabalho e não da escola. Mostra a tristeza dos pais em lutarem tanto pros filhos estudarem e seguirem um caminho diferente do deles, enquanto a filha se desvirtua desses planos. E mostra também a luta desses trabalhadores de poderem voltar pra cidade natal uma única vez no ano, durante o Ano Novo Chinês. Há uma cena que uma multidão fica aguardando o trem, durante alguns dias, sem muitas informações sobre o atraso, pessoas passando mal, gente quase sendo pisoteada, enfim. O documentário foi lançado em 2009 e se chama “Last Train Home”, é bem interessante e por mais que eu sempre me questione sobre as mudanças do país nos últimos anos, acredito que esse filme ainda seja atual. Caso te interesse, é bem curto, tem 1h30m. Abraços.

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    • Obrigada pela dica Bianca.
      Vou procurar. Também acho que essas situações ainda ocorram, mas de uma maneira menos intensa. Sabemos, por exemplo da migração gigante do ano novo chinês, e por mais estrutura que a China tenha criado em trens nos úmtimos 10 anos (hoje tem muito mais opções que em 2008), ainda não é suficiente para a demanda. A mesma coisa acontece com a migração. Por mais que as leis trabalhistas estejam evoluindo aqui, ainda é muito pouco… e tudo fica mais complicado dado o número de pessoas nessa situação.
      Beijo

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  3. oi!
    boa tarde aqui! frio e chuva!
    dois anos passaram rápido! que loucura!
    realmente de tudo o que vc conta, como a China muda
    rápido tudo!
    beijo grande para vc e familia!

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  4. Olá,primeiro vou agradecer pelas dicas do blog que tem sido muito úteis na minha vida na China e e muitas vezes dando pontos de vista diferente das curiosidades desse imenso mundo chinês.Vou recomendar um livro que se chama “Mudança” de Mo yan,é um livro de memórias do autor,em 2012 foi o primeiro chinês a ganhar um prêmio Nobel de literatura.
    No site http://www.lelivros.net tem ele grátis pra ler on-line e não precisa de VPN.

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    • Olá Gabriela,
      Obrigada você por acompanhar o blog!
      Claro que antes de responder já fui lá e baixei o livro. Coincidentemente, o próximo livro da minha lista é desse mesmo autor, que eu não conhecia, mas quando fui ao Brasil em fevereiro, era o lançamento do mês (em português): As Rãs, chama-se o livro e foi prêmio Nobel de literatura em 2012.
      Agora não sei qual leio primeiro…rs
      Valeu muito pela dica!
      Abraço.

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