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As fases da vida do estrangeiro na China

Alguns anos atrás, havia aqui em Shanghai um grupo bem ativo de brasileiros, chamado PBC – Profissionais Brasileiros na China. Esse grupo se reunia basicamente a cada 40 dias e muitos brasileiros (e alguns estrangeiros) contavam um pouco da sua experiência na China, além de outras atividades promovidas pelos organizadores.

O interessante desses encontros era que, independente da profissão exercida, no final, quando se ia analisar, as dificuldades enfrentadas eram as mesmas, com as peculiaridades de cada área, mas se resumiam em problemas de comunicação e de entendimento da cultura local x a ocidental.

Numa dessas palestras, um dos palestrantes falou sobre suas experiências, claro, e terminou citando que todo o estrangeiro que vem para a China, passa pelos 5 D’s, fazendo uma analogia ao programa de qualidade conhecido como 5 S’s.

E o que seriam os 5 D’s?

Bom, isso é uma ‘teoria’ inspirada na vida cotidiana e nas dificuldades que todos nós, estrangeiros, passamos na China. Mas, sinceramente, acho que isso era mais forte até uns 7 ou 8 anos atrás.

Nos últimos 7 anos, só quem vive na China pode entender o quão rápido foi a transformação desse país. Na realidade são 30 anos de mudanças galopantes, mas nesses últimos anos envolveram comportamento da sociedade, do consumo e da oferta. E com essa transformação, a melhora na qualidade de vida dos chineses e, consequentemente, dos ocidentais que vivem aqui.

Com isso, tenho certeza que muitos passam batido por alguns desses D’s ou, ao menos, nenhum sentimento é tão radical.

Mas vamos a eles, e depois vocês mesmo podem opinar (principalmente os que conhecem e/ou vivem aqui):

Deslumbre – realmente é impossível não ficar boquiaberto com o que se vê por aqui. Cidades bem estruturadas, limpas, estradas largas, viadutos por todos os lados, metrô em quase todas as cidades, aeroportos gigantes (mesmo fora dos grandes centros), um mundo de consumo jamais pensado na China antiga, segurança. E eu poderia ficar aqui enumerando coisas e mais coisas que deixam qualquer estrangeiro realmente deslumbrado!

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Foto de Antonio Cardoso

Além disso, a cultura chinesa encanta, é bela, intrigante e cheia de mistérios. E a cada dia descobrir uma faceta dessa cultura, dos costumes desse povo, é como abrir uma caixa mágina. Fascinante!

Decepção – bom, mas depois de um tempo, especialmente para quem mora fora das bolhas internacionais, se começa a perceber que nada é tão simples assim. O choque cultural existe, por mais que esteja mascarado pelas cidades cosmopolitas e com tecnologia de ponta. O idioma é uma barreira imensa e a dificuldade de comunicação deixa muitos estrangeiros desesperados.

Sempre digo que o dinheiro, o planejamento e a vontade política podem construir tudo, o concreto e as boas ideias se unem para o desenvolvimento. Mas a consciência coletiva, as raízes de uma cultura milenar (ou mesmo que fosse centenária) não se muda assim. Não há o que faça isso acontecer.

Deboche – não gosto muito dessa palavra, mas já que são os D’s em destaque, que seja. Pois o que acontece, de fato, é que nos divertimos com essas diferenças, e achamos tudo muito engraçado: as roupas cheias de brilhos, as coroas de flores que significam sorte, as bicicletas coladas com fita adesiva, os carros com cores e enfeites mais do que extravagantes, as pessoas dormindo em qualquer lugar e por aí vai, uma lista infinita de padrões culturais diferentes do que estamos acostumados e que, sim, nos causa estranhamento.

Desespero – essa é uma fase que já vi algumas pessoas passar. Dá uma vontade louca de ir embora, se iniciam os questionamentos do tipo: “o que estou fazendo aqui” ou “não consigo mais conviver com isso”. Parece que toda a carga de paciência e as tentativas de entendimento das diferenças desaparecem num passe de mágica, e tudo, até o simples (que não é tão simples assim…) atravessar a rua, pode gerar um estresse nunca antes imaginado.

As vezes isso dura um dia, algumas horas (costumo chamar esses momentos de ‘bad China’) ou semanas, o que é mais grave e realmente se precisa ponderar a estada por aqui. Por que os momentos ‘bad China’ a que me refiro, são aqueles em que passamos por uma determinada situação que causa raiva, dá até vontade de chorar, gritar. E pode ser com um taxista, com a ayi, com o cara que vende frutas e quer te cobrar o triplo do preço só porque você é estrangeiro. Mas é um momento. Logo passa.

Quando dura mais que um dia, e vai ficando crônico, é bom repensar, pois já se deve estar à beira do quinto D.

Foto de Antonio Cardoso

Foto de Antonio Cardoso

Deu – bom, esse é o tal quinto D, que não tem escapatória. Se deu, deu… a pessoa chegou num estágio de estresse com tudo, da dificuldade de adaptação, muitas vezes somada a saudades de casa e das pessoas que lá ficaram, que não resta outra saída: ir embora, procurar outro rumo para a vida.

O sexto D

Quando saímos da palestra, fiquei pensando em quantos estágios eu já havia passado e acho que, nesses quase 12 anos de China (naquela época 10) já passei por todos eles centenas de vezes!

Sim, porque algumas coisas são cíclicas. Mas em nenhuma das vezes o ‘Deu’, foi mais forte do que minha vontade de ficar por aqui.

E por ter ficado matutando sobre isso, cheguei a conclusão que existe um sexto D. Quando descobrimos que mesmo passando por todos os cinco D’s diversas vezes, ainda temos a vontade de ficar e aprender mais, descobrir mais coisas e continuar vivendo os altos e baixos, as delícias e delírios,  os micos e as conquistas de ser estrangeiro nas terras de Mao.

Esse D é o Desencana.

Isso mesmo: Desencana e seja feliz!

E assim a vida fica mais leve, as coisas acontecem de forma mais suave e adotamos a filosofia do ‘depois que passa a gente ri’, que já escrevi tantas vezes aqui no blog.

Sem esquecer que somos os hóspedes e ninguém nos obrigou a vir viver aqui.

E você que vive na China, em que ‘D’ está agora?

Zái Jián!

PS: Renato, obrigada pela inspiração, mesmo depois de tantos anos…

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16 pensamentos sobre “As fases da vida do estrangeiro na China

  1. Olá Christine amei seu blog!! Obrigada por cria-lo, e dividir suas experiências, nunca pensei que um dia fosse precisar de algo assim rsrs… Tb sou de Santos, e meu marido ( por medo, falta de conhecimento) recusou a primeira proposta que teve, para trabalhar na China, mas agora depois de pesquisar, estudar um pouco, está pensando em aceitar, assim que surgir nova oportunidade. Se fosse possível, gostaria de manter contato com vc. Abraços

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    • Olá, Thaís! Obrigada!
      Claro que podemos manter contato. Por email, através do link ‘contato’ aqui no blog, ou por mensagem privada na fanpage do Facebook. Fique à vontade.
      Que legal que é de Santos. Estarei aí em abril!
      Abraço.

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  2. Passei por todos D’s e também desencanei. Um dos piores dias da minha vida foi ter entrado em um táxi em Urumqi, -26 graus uma rua que mal passava táxi, mostro o cartão com o endereço pro taxista e ele diz que não. Pensei ele não sabe lê, falei o local, e ele não bem grosso e mandou eu sai do táxi dele. Esse dia eu chorava de frio e raiva. Eu desencanei e depois em 2014 voltei pro estágio DEU, mas a saudade é gigante. Se eu pudesse voltaria pra China sem pensar duas vezes!

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    • Oi Mariana,
      Pois é, já chorei de raiva e frustração também. Mas adorei seu comentário. Só quem já viveu pode entender essa montanha russa de sentimentos que vivemos aqui. E são poucos os que foram embora que não querem voltar! Acho que tem alguma coisa mágica aqui. 😍🇨🇳

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  3. Boa noite Christiane! Passei o ano novo em Chengdu com meu marido que mora aí está a trabalho, achei um pouco perigoso o trânsito e fiquei admirada como eles gostam de comida picante, visitei a reserva dos pandas gigantes e fomos passear pelas montanhas e no centro comercial da cidade, espero estar de volta nas próximas férias.

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    • OI Diomara!
      Que legal…
      O trânsito é assim mesmo, depois de um tempo você acostuma! rs. E, na real, é estranho para nossos padrões, porque entre eles tudo funciona em perfeita harmonia. =P
      Chengdu fica na província de Sichuan, que é famosa pela comida apimentada. Acho que é a culinária mais apimentada da China, eles comem pimenta até no café da manhã. Já em Shanghai é mais agridoce. E assim vai!
      E como foi na reserva? são lindos os pandas, né? ❤
      Abraço e volte mesmo!

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  4. No comeco eu ate usava taxi, ate certo dia fechei um pau com um taxista, eu cheguei do aeroporto com a minha mulher ai entramos no taxi indicado pela pessoa do aeroporto apos entrarmos ele ligou o carro e foi,ai perguntou para onde falamos o destino que e um lugar nao muito longe do aeroporto ele falou eu nao sei onde e. Ai eu ja me liguei viu que sou estrangeiro quer ficar dando volta ai falei entao vai pra estacao fe metro mais proxima , ele voltou a dizer eu nao sei aonde tem metro aqui ai eu fiquei puto e falei para o taxi eu vou pegar outro. Como ele iria terque pegar a fila do aero pros taxis de volta que e e enorme ele comecou a se desesperar e pedir pra ficar e bla bla bla eu nao sou uma ma pessoa blablabla . Fim das contas consegui me levou aonde eu queria aprendeu do nada acreditam? Depois disso descobri um aplicativo que e connectado no wechat , uma especia de uber , hj em dia nem preciso mais falar voce bota no app pra onde e o motorista segue o gps e ele ja te fala o valor aproximado antes mesmo. Nunca mais pego taxi agora este app e realmente util.

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    • Oi Rafael,
      Acho que não existe aqui na China, quem não tenha uma boa história para contar sobre taxistas! hehehe.
      Ser estrangeiro (ocidental) aqui não é fácil não!
      Abraço e obrigada por dividir sua história.
      Mas em que D vc está? ;-P

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