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Barganhar é preciso!

Nesses três anos escrevendo sobre a China, muitas vezes já falei sobre a questão dos preços, como é difícil para um estrangeiro comprar qualquer coisa em mercados chineses ou vendedores de rua e a terrível sensação que sentimos por, no final, perder a noção do que seria um preço justo por essa ou aquela mercadoria.

Tenho uma amiga que defende a tese que devemos oferecer 20% do valor que nos deram. Por exemplo, se o vendedor me oferecer o produto por RMB 100,00, devo oferecer a ele RMB 20,00 e deu. E isso é para qualquer coisa: de capa de celular até vestido de noiva. Não interessa.

Se esses 20% são o valor justo, não sei. Mas com certeza o preço que nos deram está longe de ser o real.

Mas o interessante disso, é que barganhar é um hábito do chinês. É a maneira dele negociar. Sem barganha não há negócio, ou melhor, sem barganha não tem graça negociar.

A única diferença é que de chinês para chinês, o vendedor usualmente coloca 10 ou 15% a mais, para haver essa negociação e todo o teatro envolvido nela. Já para o estrangeiro, dependendo da cara do freguês (leia-se a moeda que se tem na carteira), essa margem de negociação pode chegar a estratosféricos 1000%.

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Isso porque, os europeus, por exemplo, tem uma moeda forte e as coisas bobas (capinhas de celular, lenços, bonés, souvenires chinesas etc.) que são vendidas nos mercados chineses, chegam a ser super baratas para eles, mesmo se o vendedor chinês colocar 200% a mais. E por conta disso, os que sabem da tradição da barganha chinesa, oferecem 10 ou 20% menos e já acham que fizeram um negócio da China! Só que não… E assim acabam inflacionando o mercado dos estrangeiros com moedas mais fracas, como nós brasileiros.

Quando citei o termo ‘teatro’ acima, é porque essa negociação às vezes chega a ser uma saga.

Vai um esquete básico (que pode se estender muito além dessas linhas, ou não):

  • Você pergunta quanto é;
  • O cara te dá um preço absurdo;
  • Você diz que é caro, faz sua oferta;
  • O vendedor diz que não, que o produto é de primeira linha, original (!?!);
  • Você insiste;
  • Ele diz que não pode, que você está matando ele;
  • Você sai da loja;
  • O vendedor sai atrás de você e pergunta quanto você quer pagar (sim, de novo);
  • Você mantém a sua oferta (esse é um dos truques);
  • Ele te chama de ‘my friend’;
  • Você continua andando;
  • Ai ele tenta ‘mi amiga’(desde as olimpíadas de 2008 eles aprenderam o espanhol também);
  • Ele te leva para a loja de novo e te oferece um preço 20% abaixo do primeiro;
  • Você mantém sua oferta e sai da loja novamente;
  • Ele corre e tenta mais uma vez te convencer a comprar, agora por um valor 20% acima do que você ofereceu;
  • Você diz que não;
  • Ele finalmente diz ‘ok’, quase chorando e lhe dizendo que você acabou com o dia dele, mas para não perder o BFF (best friend forever) ele fará esse sacrifício.

Claro que ele não perdeu um centavo de remembie sequer e com certeza (e isso me deixa maluca de raiva) você pagou um preço bem mais alto do que o valor real. Para ter uma ideia clara do quanto foi seu prejuízo, é só lembrar quanto tempo o vendedor levou para aceitar a sua oferta. Se ela foi aceita de primeira, tenha certeza: pagou MUITO caro. E aí não pode voltar atrás. Negociação é negociação. O vendedor deu um preço, você foi livre para fazer uma oferta, agora cumpra! =]

Quando se é turista, as pessoas ainda saem rindo, mesmo sabendo que tomaram algum ‘chapéu’. E no final das contas nem foi tão grande assim convertido na sua moeda. Mas para quem vive aqui, isso é um estresse diário. Porque desde o mercado fake até o de verduras e legumes, todos agem da mesma forma.

Hoje, sinceramente, cansei de brincar disso! (rs). Adoro comprar no IKEA, Carrefour ou qualquer outro local onde o preço está etiquetado no produto e na prateleira. Olho, penso, compro se quiser e sei que é o mesmo preço que qualquer outra pessoa (leia-se chinês) vai pagar.

O interessante é que nos últimos dois anos, mesmo em locais turísticos, já existem várias lojas que colocam o preço justo nos seus produtos e isso é realmente um alívio. Nesses locais não tem barganha, mas em compensação uma bolsinha chinesa que normalmente te ofereciam por 100 RMB e depois de todo o teatro, você conseguiria comprar por 40 RMB, nessas lojas estão por RMB 15,00. Deu para entender a diferença? =]

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Olha eu ‘achando’ que havia feito um negócio da China! =]

Para não desanimar ninguém de vir comprar na China, relaciono aqui umas dicas para barganhar, tiradas da minha experiência nesses anos:

  • Começar com algumas palavras em chinês. Pode ser o simples ‘nihao’ (olá) e deixa o vendedor feliz.
  •  Não se vista como fosse para uma festa, pois significa para ele que você é rico e pode pagar qualquer preço. Lembre-se que você é um estrangeiro, isso já é o suficiente.
  • Não mostre uma carteira cheia de dinheiro. Eles são espertos (negociantes natos) e se verem que tem muito, o preço inflacionado será duplicado automaticamente. O ideal é sempre andar com uma quantia pequena nos bolsos, evitando abrir bolsas e carteiras.
  • Não se mostre muito interessado, isso faz com que o vendedor seja mais duro na negociação. E lembre-se que o que ele vende, tem mais 100 lojinhas no mesmo shopping vendendo também!
  • Só inicie uma barganha se você realmente for comprar o produto. Muitos turistas começam a negociar porque acham divertido esse jogo, mas depois que o vendedor concorda com o preço, eles não compram e passam para outra loja. Aí, dependendo do humor do chinês pode dar briga. Além do que eles espalham, como pólvora, uma noticia dessas e em 5 minutos o mercado inteiro estará sabendo o que você fez.
  • Pense antes de fazer a oferta, pois depois você pode até concordar em pagar um pouco mais, mas jamais pode baixar a sua própria oferta.

Agora é só começar a treinar a arte da barganha.

Boas compras!

Zài Jiàn!

 

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16 pensamentos sobre “Barganhar é preciso!

  1. Você descreveu os passo a passo exatamente como é!!! hahaha Só nunca me chamaram de “mi amiga” ainda.
    Nas primeiras vezes que fazemos toda a negociação é até engraçado, mas depois cansa. Com um ano e meio de China, só vou em lugares de barganhar quando preciso muito.
    Beijos e adoro seus posts
    http://chinachicblog.com/

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  2. Pingback: Shanghai – parques, restaurantes e compras – algumas sugestões. | China na minha vida

  3. Oi Christine,
    tudo bem?! Meu nome é Augusto, estou na China a trabalho por alguns dias.
    Minha viagem foi mais tranquila pois salvei varias paginas que me interessavam dos seu blog pra ler offline e me afundei neles durante as intermináveis horas de voo.
    Obrigado mesmo pelas dicas!
    hoje após a feira que eu estou participando, fui andar pela cidade. A única coisa que eu não encontrei foi um shopping popular, estilo a Uruguaiana/Camelódromo no Rio, e tipo 25 de Março em São Paulo, com tudo que se imagina a preços bem baixos, de capinha de telefone, a cd, pendrive,… A fama desses centros populares no Brasil é de que os chineses que comandam de tudo por lá.
    só encontrei as grandes lojas e shoppings pela nanjing road.
    Onde eu encontro esses shoppings populares? Depois de Shanghai, vou pra Shenzhen. Será que por lá é mais interessante pra compras? Meu visto não me permite ir pra Hong Kong. Falha grande

    Obrigado pelas dicas e ajudas através do blog.
    Guto

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    • Olá Augusto,
      Hoje será publicado um post com os endereços de todos que conheço. No final da tarde. E eu nunca fui a Shenzhen, por isso não sei como é a cidade para compras. Abraço e aproveite sua estada aqui.

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  4. Pingback: Shanghai – dicas para facilitar a vida do turista (4) | China na minha vida

  5. Oi, Christine, Parabéns pelo blog! Moro na China desde agosto do ano passado, no começo fiquei tão embaraçada com a barganha que fiquei os primeiros meses só comprando o essencial. Ainda fico muito constrangida com o teatro da barganha, não me sinto a vontade, eles fazem parecer que vc os está prejudicando. Num dos Mercados estava com a minha filha de 9 anos tentando comprar um vestido de festa. A vendedora pediu 1500 rmb num vestido que não valia mais do que 150 rmb para um turista, porque para chinês acho que não passa de 80 rmb. Quando começou a negociação a chinezinha atacou dizendo que o meu marido era um pessimo pai porque não comprava o vestido para a filha. Que a filha ia ter vergonha de um pai assim… Foi horrível. No fim virou um bate boca que não resultou em nada, só chateação. Destesto essa forma de comércio.

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  6. Pingback: China na NOSSA vida: Se começar a barganhar… compre! | China na minha vida

  7. Aiai e como cansa barganha. Chris, na primeira vez que estive na China, barganhei uma bolsa e quando a mocinha abaixou o preço, eu não quis levar…. levei um tapa no bumbum rs. Depois fui comprar um joguinho de video game e ocorreu a mesma coisa, quando ela colocou no preço que eu queria decidir não levar…. daí fui embora e ela veio atrás gritando, chorando…. fiquei no meio de um círculo de chineses tudo olhando para mim enquanto a mocinha chorava e gritava. Eis que surgiu o Davi, que n época era só meu amigo, e me salvou da situação, mas eu tive que levar o produto rs. Segundo a mocinha chinesa, ela tinha gastado tempo comigo e perdido dinheiro. Depois dessas situações entendi como funciona a barganha.
    Beijocas
    Van

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    • Oi Vanessa,
      Adoro quando quem vive aqui e passou pelas experiências que relato, deixam seus depoimentos!
      Faz uma diferença imensa para os leitores que não conhecem a China.
      Ao menos pensam: a pessoa que escreveu não está exagerando, ou então podem pensar: só tem brasileiro doido vivendo na China…hehehe.
      Brincadeiras à parte, eu reconheço que para quem nunca pisou nessa terra é dificil entender as entrelinhas de tudo que passamos no nosso dia a dia e que nem sempre conseguimos transformar em palavras.
      Beijo

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  8. Christine, aqui em Taubaté onde moro tem todos os domingos (desde que a cidade existe e apareceu naturalmente. Não é folclore ou feira turística, kkk!) ao lado do Mercado Municipal a Feira da Barganha. O esquema é bem esse que você falou com a exceção de encontrarmos muitas raridades nessa feira. Quem mexe com antiquários está sempre a procura de novidades por aqui e o vendedor geralmente é aquele caipira magrinho de cavanhaque ralo e constantemente com a mão no queixo pensando. Detalhe: Durante a negociação o caipira dificilmente olha para você. Vai ouvindo e falando com você e arrumando as coisas dele, cumprimentando outras pessoas, sai para ir ao banheiro,…, é uma novela essa negociação.
    Adorei seu post e eu como fui criado em São Paulo, quando vou comprar alguma coisa tem que ser rapidinho. Não tenho paciência para negociar, kkk!
    Um abraço grandão,
    Manoel

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    • Muito bom, Manoel. E aqui entre nós a barganha é uma das mais antigas formas de negociação. Mas existem locais como a China, a Turquia onde isso é a regra até os dias de hoje.
      E vc usou a palavra certa: paciência. O segredo desse jogo é a paciência que muitas vezes me falta! rs
      Abraço.

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  9. oi!
    bons tempos os de barganha! aqui já tivemos coisas assim, agora cada vez mais dificil barganhar, e achar preços menores tem de se andar e pesquisar muito, mesmo com a internet, tem de se perder tempo procurando!
    ……………………como sempre , vc escreve de um jeito gostoso de se ler!
    aqui já os ajitos de carnaval, e vamos ter chuva, sei lá a quantidade! São Paulo está a beira do racionamento de água e por aqui tambem tem de se ter cuidado! Com a chuva do final da tarde de ontem a temperatura ficou melhor, mas ainda está muito quente por aqui!………………..beijo grande para vc e familia!

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