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Mestrado em Mandarim: isso é possível.

Estudar o mandarim para se comunicar basicamente,  já é um desafio e tanto. Agora, iniciar os estudos do chinês como segunda língua na universidade no Brasil e depois vir fazer um mestrado na China em mandarim, não é para qualquer um.

Um desafio imenso em todos os sentidos: a dificuldade de aprendizado da língua, a comunicação oral e escrita, a adaptação a cultura local, a distância e tantas outras coisas mais, que somente quem vive ou viveu na China pode compreender.

Mas claro que existe a recompensa, o lado bom da moeda, a realização pessoal e profissional. E hoje a Verena Veludo Papacidero, vai nos mostrar um pouco da sua trajetória no aprendizado do mandarim.

Verena com seu professor, que também é ator de ópera chinesa.

Verena com seu professor, que também é ator de ópera chinesa.

Verena acabou de completar 30 anos, é formada em Letras, com habilitação em Língua Portuguesa e Língua Chinesa, pela Universidade de São Paulo – USP.

Quando chegou o momento da escolha da habilitação na graduação, ela optou pelo estudo de Português e uma Língua Estrangeira. Suas opções eram Chinês, Grego ou Italiano, já que Verena queria algo diferente do que a maioria dos seus colegas procurava, ou seja, o Inglês ou Espanhol.

E um pouco dessa trajetória, ela relata aqui:

Porque a escolha do Mandarim?

Quando fiz as opções, os motivos eram simples: Chinês, porque era o que havia de mais diferente em línguas estrangeiras; Grego, pela ascendência familiar; e Italiano, além da ascendência, por adorar a língua e a cultura. 

Mas o Chinês caiu para mim como uma luva e comecei a estudar um pouco no Templo Zu Lai, em Cotia, para iniciar na universidade com uma base mínima.

E como foi aprender uma língua tão diferente na USP?

Para minha surpresa (e alívio) a USP oferece uma formação completa desde o pinyin e a escrita dos ideogramas, além de aulas sobre a cultura e história do pensamento chinês. Isso aguçou minha curiosidade pela língua e cultura tão diferentes da nossa.

Tive professores maravilhosos e super importantes na minha formação. Com eles aprendi a escrita dos ideogramas tradicionais e dos simplificados, a gramática da língua chinesa, as primeiras frases em chinês, a cultura e o pensamento chinês o confucionismo, neo-confucionismo, taoísmo, budismo, entre tantos e tantos outros ensinamentos, era sempre um prazer assistir às aulas.

Com suas colegas na Universidade.

Verena e suas colegas de Mestrado no Parque Sha Hu.

Quando você decidiu vir estudar na China?

Em 2009, com a ajuda de um querido colega, estudei um semestre, por conta própria, na Universidade Normal de Yunnan, em Kunming. Foi a minha primeira experiência de intercâmbio e uma grande aventura pela China.

Aperfeiçoei-me no idioma e tive oportunidade de vivenciar a cultura chinesa. Convivi com estudantes de diversos países, o que proporcionou um contato com as línguas e as culturas destes países, e principalmente, a prática da língua inglesa.

Aproveitei esse período e viajei por várias cidades chinesas, onde conheci as diferentes culturas e dialetos de algumas minorias étnicas da China.

Como se iniciou sua carreira no ensino do mandarim?

Quando voltei ao Brasil, trabalhei inicialmente com ensino de português para chineses, e com ensino de língua e cultura chinesa no Colégio Sidarta, onde dei aulas para Ensino Infantil e Fundamental.

Dei aulas de Mandarim para o nível Básico no Instituto Confúcio da Unesp, e como queria e precisava continuar estudando língua chinesa, aproveitei para também cursar o nível Avançado de Mandarim no próprio Instituto.

Voltar para a China foi consequência desse estudo?

Sim, pois surgiu a oportunidade de fazer intercâmbio com bolsa de estudo do Instituto Confúcio na Universidade de Hubei. A minha ideia era estudar um semestre de língua chinesa e me preparar para fazer o Mestrado em Ensino de Chinês como Segunda Língua. E assim eu fiz.

Na universidade com seus professores.

Qualificação da dissertação de Mestrado: Verena e suas colegas do Vietnam e Malásia e orientadores.

Como foi o processo para ingressar no mestrado na China?

Vim para a Universidade de Hubei, cidade de Wuhan, em fevereiro de 2013 como aluna bolsista do Instituto Confúcio, já com os documentos necessários para me inscrever no Mestrado. Assim ganharia tempo.

Durante o semestre, me preparei para fazer o exame HSK 5 e HSKK Básico (exames de proficiência na língua chinesa). Passei e juntei os certificados aos outros documentos para a inscrição no Mestrado (cartas de referência e de recomendação de professores do Instituto Confúcio, formulário de inscrição, formulário médico e termo de comprometimento (afirmando que se dedicará ao ensino de língua chinesa por cinco anos após o término do curso), além do diploma da graduação.

Comecei o curso de Mestrado em Ensino de Chinês como Segunda Língua na Universidade de Hubei em setembro de 2013.

Ao final do primeiro ano, para continuar com a bolsa de estudos até o final do curso, precisei  realizar os exames HSK 6 e HSKK Intermediário, com pontuação mínima de 180 no HSK 6 e 70 no HSKK. Em janeiro de 2014 fiz a prova por conta própria para ver qual seria o resultado, obtive 203 pontos, o que me deixou mais tranquila para prestar o exame final e não perder a bolsa! No final do primeiro ano de curso, prestei oficialmente os exames e tive a pontuação 232. Um grande alívio e vitória!

Sobre o curso, como funciona resumidamente?

As disciplinas são ministradas em chinês e abrangem os tópicos: Mandarim Avançado, Introdução à Linguística da Língua Chinesa, História do Pensamento e Filosofia Chinesa, Arte e Cultura Chinesa, Ideogramas e Cultura Chinesa, Tópicos da China Contemporânea, Metodologia de Ensino de Mandarim como Segunda Língua, Testes e Avaliações no Ensino de Mandarim, Avaliação e Publicação de Materiais Didáticos de Mandarim, Estudos de Casos em Ensino de Mandarim, Aquisição de Segunda Língua, Análise de Erros, Comunicação Intercultural, Uso de Novas Tecnologias no Ensino de Línguas, Introdução à Cultura Mundial, Tópicos de Ensino Primário e Secundário no Exterior.  

É claro que não foi tão fácil e divertido como a graduação na USP.  As aulas todas em mandarim, com professores de diversas regiões da China, com seus sotaques carregado de seus dialetos, eram um desafio diário.

Ao final de cada disciplina tinha que escrever artigos em chinês. Realmente não foi fácil, mas foi possível, não só pela minha paciência e persistência taurina, mas também pelo que fui aprendendo no contato intercultural, e pela compreensão dos professores com os alunos estrangeiros. É como se fôssemos “café com leite”, eles consideram as nossas dificuldades! 

Atualmente, estou na reta final do Mestrado, escrevendo a dissertação sobre as ‘Políticas de línguas no Brasil e sua influência no ensino de chinês para brasileiros’, que deve ser apresentada no final de Maio. O processo de escrever a dissertação em mandarim também não está sendo um mar de rosas, claro.  

Mas o que estou adorando é o quanto tenho aprendido sobre meu próprio país ao fazer as pesquisas para a tese, como as políticas afetam o ensino de línguas para os brasileiros, e como está configurado o ensino de Mandarim hoje no Brasil.

Verena e seu orientador, Professor Huang Bin, no Museu da Universidade de Hubei

Verena e seu orientador, Professor Huang Bin, no Museu da Universidade de Hubei

E seu recado para quem quer estudar o mandarim?

Para aqueles que estiverem estudando ou que querem começar os estudos em língua e cultura chinesa, seja no Brasil ou na China, não desista no meio do caminho só porque é uma língua “tão difícil” de aprender e uma cultura “tão diferente” da nossa. Esta trilha exige perseverança e persistência.

Aprender a língua portuguesa pode ser tão difícil como aprender a língua chinesa, só depende do lado que você está. Quando ensino português aos chineses, concluo que apesar da escrita alfabética, as conjugações verbais e as flexões de gênero e número já são suficientes para fazer do português uma língua super difícil!

E ao estudar os ideogramas chineses, aprender a identificar os significados de seus componentes, ajuda-nos a enxergar a essência e o sentido de cada ideograma, e entender que eles não são “desenhos” e sim formas lógicas de expressar significados. 

Acredito que com as relações comerciais e diplomáticas, os acordos nas áreas de tecnologia, educação etc, estabelecidos entre os governos brasileiro e chinês, agora é a hora de investirmos no aprendizado da língua e da cultura chinesa. Não só para conseguirmos empregos melhores e fazermos valer as parcerias e investimentos, mas também para desenvolvermos habilidades e competências, e adquirirmos conhecimentos. 

foto 5

Com os atores da ópera chinesa, em Wuhan.

E assim, Verena deixou seu relato aqui, nos mostrando que o foco é essencial para tudo na vida. Os desafios fazem parte da nossa trajetória e a adaptação é nossa grande arma.

Aprender uma nova língua, se inserir numa nova cultura, exige persistência, determinação, coragem.

Difícil? Sim.

Impossível? Não. Precisa querer.

Obrigada, Verena e muito sucesso na sua dissertação!

E você? Se animou para aprender o mandarim?

Zái Jiàn!

Visite o China na minha vida no IG – @chinanaminhavida e no Facebook.

Este texto foi originalmente publicado no blog Brasileiras pelo Mundo.

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3 pensamentos sobre “Mestrado em Mandarim: isso é possível.

  1. Pingback: China na nossa vida – Intercâmbio na China. | China na minha vida

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