viver na China

Cisnes Selvagens, 14 anos depois: o livro que mudou meu olhar sobre a China

Em abril de 2012, vivendo em Shanghai e ainda tentando compreender muitas das camadas da sociedade chinesa, escrevi neste blog sobre um livro que havia me tocado profundamente: Cisnes Selvagens, de Jung Chang.

Naquela época, escrevi que a leitura havia modificado e humanizado meu olhar sobre o povo chinês. E resumi aquela sensação em poucas palavras: menos julgamento e mais entendimento.

Quatorze anos depois, reencontrei esse livro por outro caminho: um clube de leitura de que participo e que dá a volta ao mundo pela literatura. Quando foi a vez da China, logo pensei nessa obra, já que ela nos proporciona a visão de três momentos cruciais da China.

Ao preparar um material visual sobre a obra, percebi que não estava apenas revisitando a história de três mulheres chinesas. Estava também reencontrando a mulher que eu era quando escrevi aquela primeira resenha.

E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas dos livros: eles permanecem os mesmos. Nós é que voltamos diferentes.

Uma pessoa segurando o livro 'Cisnes selvagens' de Jung Chang, com um cenário de fundo que inclui lanternas vermelhas e uma paisagem montanhosa ao entardecer.

Três mulheres. Um século de China.

Cisnes Selvagens acompanha três gerações da mesma família: a avó de Jung Chang, sua mãe e a própria autora.

Através da história dessas mulheres, atravessamos também algumas das transformações mais profundas da China no século XX: os últimos anos da China imperial, guerras, ocupação japonesa, ascensão do Partido Comunista, o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural.

Mas não é um livro de história no sentido tradicional.

A grande força de Cisnes Selvagens está justamente em mostrar como aquilo que aparece nos livros como “grandes acontecimentos históricos” entra nas casas, interfere nos casamentos, separa famílias, muda destinos, impõe silêncios e transforma a vida das pessoas comuns.

É a História com H maiúsculo contada através de pequenas histórias.

Ilustração sobre o livro 'Cisnes Selvagens' de Jung Chang, destacando três gerações de mulheres na China, com informações sobre suas vidas e o contexto histórico do país.

O livro que mudou meu olhar

Quando escrevi sobre Cisnes Selvagens em 2012, eu já vivia há alguns anos na China. Ainda assim, o livro me fez compreender comportamentos e silêncios que até então eu observava apenas com os meus referenciais ocidentais.

Conhecer um pouco do que gerações inteiras haviam vivido me ajudou a olhar para determinadas atitudes de outra maneira. Não para justificar tudo, mas para contextualizar. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Talvez tenha sido uma das primeiras vezes em que percebi claramente algo que depois se tornaria fundamental na minha relação com a China: para compreender uma cultura diferente da nossa, precisamos primeiro tentar entender de onde ela veio.

E o que vejo hoje?

Depois de tantos anos vivendo na China, estudando sua cultura e acompanhando suas transformações, volto a Cisnes Selvagens com outro olhar.

Hoje, além das três mulheres, vejo ainda mais claramente as diferentes Chinas que existem dentro dessa história. Vejo tradição e ruptura. Família e ideologia. Obediência e resistência. Medo e esperança. E vejo, sobretudo, memória.

Porque contar o que aconteceu também é uma maneira de impedir que determinadas experiências desapareçam.

Infográfico sobre 'Cisnes Selvagens', livro de Jung Chang, destacando a autora, as três gerações de mulheres na China, contexto histórico, temas principais e lições do livro.

O mapa acima talvez explique visualmente aquilo que leva centenas de páginas para contar: a história de uma família pode ser também a história de um país.

Vale a pena ler Cisnes Selvagens?

Para quem se interessa pela China, eu diria que é uma daquelas leituras que ajuda a acrescentar uma camada importante de compreensão sobre o século XX chinês.

É um relato pessoal, escrito a partir das experiências e da perspectiva de Jung Chang e de sua família. E justamente por isso eu gosto de lê-lo como aquilo que ele é: uma janela para uma experiência chinesa, e não como a explicação definitiva de toda a China.

Talvez essa seja, inclusive, uma boa maneira de nos aproximarmos de qualquer país. Abrindo muitas janelas. Lendo diferentes histórias. Ouvindo diferentes vozes. E formando, aos poucos, o nosso próprio entendimento.

Quer voltar comigo a 2012?

Minha primeira resenha de Cisnes Selvagens continua aqui no blog, exatamente como escrevi naquela época. E confesso que reler aquele texto tantos anos depois foi quase tão interessante quanto revisitar o próprio livro.

Leia aqui a resenha que publiquei em 2012.

Porque livros também fazem isso conosco.

Às vezes, quando voltamos a eles, descobrimos não apenas o quanto uma história continua atual. Descobrimos o quanto nós mesmos mudamos desde a última página.

E tem mais uma camada nessa leitura atual. Em fevereiro desse ano, li a continuação de Cisnes Selvagens, onde Jung Chang explora a relação com sua mãe, refletindo sobre as marcas duradouras da Revolução Cultural. O livro chama-se “Voai, Cisnes Selvagens” e você pode ler a resenha no link abaixo.

Bom, é isso. Reler um livro também pode ser uma descoberta do nosso caminhar…

Zái Jián!

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