Cenas da China real/China/Cultura Chinesa/Livros/Palestras e Assessoria intercultural

O Sonho da China – livro

Costumo procurar livros que contem a história da China, que nos ajudam a entender o passado, analisar o presente e, somado a minha experiência de viver 16 anos no país e ser testemunha de grande parte desse crescimento, poder tirar as próprias conclusões (mesmo que de uma maneira muito pessoal, sem pretensões) sobre a China atual.

Sempre repito (e insisto nisso) que ninguém pode falar da China sem ter passado alguns meses, no mínimo, como um residente por lá. Viver a vida como ela é, entender a sociedade, andar pelo país com olhos maravilhados e, em muitos momentos, críticos.

Sou muito grata a China e tudo que ela me proporcionou, inclusive por esse blog, meu livro e minha atividade profissional atual, mas sabemos que não pertencemos aquele lugar, pois não compactuamos com todos os pormenores do sonho chinês.

Entender (ou tentar) essa sociedade é realmente um privilégio nos dias atuais. Até 2019, antes da pandemia, a vida do estrangeiro no País do Meio era muito interessante e conveniente ( e ainda é, tenho saudades da minha vida chinesa), mas do inicio de 2020 para cá, pudemos sentir de verdade o quanto as decisões do governo impactam nossa vida, nossa rotina e nossa liberdade de ir e vir através das fronteiras.

O livro

Voltando ao foco, pois vim aqui para falar do “O Sonho da China” de Ma Jian. Um livro que não procurei, na realidade nem conhecia o autor, muito menos sua obra, mas agora voltei com o delicioso hábito de passear em livrarias, explorar prateleiras e ler as orelhas de livros, sem medo de ser feliz! Numa dessas visitas, quando já estava quase deixando o local, vi uma capa que me chamou atenção.

Já contei aqui que escolho livros pela capa também. Isso aconteceu com As Rãs – que super recomendo, e foi o meu maior dilema quando estava finalizando meu próprio livro, afinal eu precisava ter certeza que compraria meu livro pela capa dele! Rs

Lá estou eu divagando novamente… Claro que sai da livraria com o exemplar em mãos e já estou curiosa para ler os demais livros do autor, que foi exilado da China e tem sua história de vida marcada pela Revolução Cultural.

Resenha

O livro é uma distopia, e em algum momento me remeteu ao clássico Admirável Mundo Novo. O Sonho da China é um livro instigante, impacta o leitor desavisado e apesar de ser uma ficção, consegui visualizar muitas das cenas no mundo real (isso por que já vi muitas das passagens do livro acontecerem ao vivo e a cores).

A repartição criada para fazer o sonho da China virar realidade é o grande desafio de Ma Daode. O grande problema é quando o personagem principal é surpreendido pelas terríveis lembranças de um passado que a China luta por esquecer: a Revolução Cultural e a atuação da Guarda Vermelha.

Como me empolgo e não quero das spoiler, vou colocar a resenha da editora Quetzal:

Ma Daode acaba de ser nomeado diretor da Repartição do Sonho da China, um novo organismo que pretende substituir, até por meios tecnológicos, os sonhos privados de cada pessoa pelo grande sonho da China anunciado pelo «plano de rejuvenescimento nacional» do presidente Xi Jinping.
O slogan está em toda parte, em outdoors, discursos e anúncios – e mistura patriotismo e autoajuda com os «objetivos gémeos de resgatar o orgulho nacional e alcançar o bem-estar pessoal».
Ma Daode gosta de sexo e de dinheiro, tem poder, uma dúzia de amantes que lhe enviam mensagens para vários telemóveis, uma filha que estuda em Londres, um gabinete moderno e uma riqueza considerável, alimentada por anos de corrupção. Tudo vai, portanto, correr bem – até que começa a ser atormentado pelas memórias da Revolução Cultural dos anos 1960 e do seu historial de horrores, violência, morte e destruição. O seu «sonho da China» cruza-se com o «pesadelo da China», e com o desfile de imagens do caos e dos fantasmas do passado. O que levanta um problema: se o Partido tem acesso a todos os sonhos individuais, então Ma Daode tem de esconder esses pesadelos proibidos e apagar a memória. Como vai fazê-lo?
Mais do que uma distopia, O Sonho da China é um passeio tragicómico pelos horrores e absurdos do poder totalitário. Mas o riso abre as portas a um caos povoado de fantas
mas e de acontecimentos que não conseguem ser esquecidos na história da China de hoje.

O autor

Ma Jian nasceu em Qingdao, China, em 1953. Trabalhou como aprendiz de relojoeiro, pintor de painéis publicitários e fotojornalista. Aos 30 anos, abandonou o emprego, viajou ao longo de três anos através da China e concluiu o primeiro romance – que levou o governo chinês a proibir os seus futuros trabalhos. Em 1987, Ma Jian trocou Pequim por Hong Kong, e escreveu o romance Beijing Coma sobre os acontecimentos de Tiananmen. Mudou-se para a Alemanha e depois para Londres, onde vive atualmente. Red Dust [Poeira Vermelha], o relato ficcionado das suas viagens pelo interior da China, obteve o prémio de literatura de viagem Thomas Cook. Recebeu também o China Free Culture Prize e o Athens Prize for Literature.

O interessante (e até irônico) é que Ma Jian nasceu no mesmo ano do atual presidente (vitalício) da China, passaram pela mesma educação, desafios e memórias ( os pais do presidente também foram perseguidos pela Revolução Cultural), mas um foi exilado, enquanto o outro é o homem mais poderoso da China atual.

O sonho chinês – o que é afinal?

Achei melhor colocar a introdução desse artigo da Wikipédia, para descrever formalmente esse conceito. Recomendo a leitura integral do texto no link.

O Sonho Chinês é um termo adotado pelo atual presidente chinês e apresentado pela primeira vez ao público, oficialmente como um projeto político nacional, em novembro de 2012, na conclusão do 18º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês. O conceito, remonta à história da China durante os séculos e se trata, de forma simplificada, de uma promessa de renovação e de modernização do país.

Além de ser um termo amplamente utilizado pelo Partido Comunista Chinês como forma de propaganda política e de legitimação do seu próprio poder, o conceito tem raízes muito mais profundas e conseguiu aderência entre os chineses. Isso por dois motivos principais: primeiro, porque o conceito carrega consigo características que já são caras à cultura política chinesa; segundo, porque a memória coletiva dos chineses é bastante marcada pelos eventos traumáticos que viveram no passado, com especial destaque para o Século da Humilhação.

Em outras palavras: um projeto profundamente nacionalista como o Sonho Chinês, que promete modernizar a China e torná-la uma potência mundial, encontra solo fértil no imaginário coletivo da população chinesa.

“Tudo o que fui carrego comigo, tudo o que serei jaz à espera na estrada.“ Ma Jian

Qual livro sobre a China que te marcou? Conta aqui.

Zái Jián!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s