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O filho unico chinês.

Não é a primeira vez que escrevo sobre esse assunto, mas depois do post sobre a quantidade de homens na China e a previsão nada animadora para o futuro, algumas pessoas colocaram comentários, outras me escreveram, e sei que um monte fica sempre com o pé atrás em se tratando das ‘regras’ chinesas.

Cartaz do governo na época que iniciaram a campanha do filho único.

A primeira atitude, em quase todos os casos e baseada na nossa cultura, na politica adotada em nosso pais e na experiência de cada um, é de indignação. Como pode um governo determinar quantos filhos cada casal pode ter? Como pode uma lei interferir na vida privada de tal maneira que obriga as pessoas a cometerem atos que são tão condenados na nossa sociedade cristã, como o aborto?

E esse é mais um assunto polêmico, principalmente quando tento explicar o que para muitos é inexplicável: isso tem uma razão e dentro da realidade deles faz sentido e é completamente aceitável. É uma medida tomada em função da históra, do passado e por isso é possivel ao menos se tentar entender. E, por favor, explicar baseada em fatos passados e observação do dia a dia aqui, não quer dizer que eu concorde, que ache que é o modelo ideal, ou que apoie. Só procuro entender o sentido de coisas que são tão estranhas à nós ocidentais.

Na verdade, também já falei isso em algum momento nesse blog, a China conseguiu desestruturar razoavelmente minhas convicções, minha maneira de enxergar o mundo. Hoje pondero muito sobre certos assuntos, certas verdades e certezas e, sinceramente isso me incomoda bastante pois me tornou uma pessoa mais questionadora ainda, mais ‘advogada do diabo’ ainda, e no final ainda não encontrei o ‘fiel da balança’ para todos esses questionamentos. Sobre esse assunto especificamente, realmente não acho certo a proibição de ter mais de um filho (principalmente num pais onde há uma discriminação ao sexo feminino tão enraigada), mas também questiono a falta de planejamento familiar no Brasil, onde o próprio governo estimula através das tais ‘bolsas’, a procriação desenfreada. Onde o pobre, infelizmente, vê mais vantagem em ter filhos e não precisar trabalhar, já que para o universo deles o básico é o suficiente, sem se preocuparem com o futuro dessas crianças. Bom, mas isso é assunto para mais de metro, e só citei para que vocês possam entender como muitas vezes fico desesperada…rs. Sem saber para que lado ir. Claro, o ideal seria um ponto neutro, justo e que não fosse nem tanto ao céu e nem tampouco ao inferno, se é que vocês me entendem…

 Bom, a China possui mais de 50 etnias, 56 para ser mais exata. Mas 88% dos chineses pertencem a etnia HAN. Isso nos leva a fácil dedução de que todas as outras etnias são consideradas minorias. E como minorias, tem alguns de seus direitos assegurados, ou seja, para esses grupos não há restrição ao número de filhos.

Apesar de minorias, esses 55 grupos representam um pouco mais de 130 milhões de pessoas. Vamos combinar que se cada casal resolver ter 3 filhos, é gente prá chines nenhum botar defeito, né? Mas os 88% da etnia Han, realmente sofrem um rígido controle de natalidade. Abortos são encarados como procedimento normal, que se faz em qualquer hospital publico. Essa para mim é a parte mais desumana da lei. Porque de certo modo, facilita demais a falta de cuidados e coloca, mais uma vez, a mulher em situação de risco. Às vezes me pergunto quantas não morrem, quantas não ficam estéreis por um procedimento mal feito. E nem vamos entrar na questão do feto/bebê, pois não há limite para o procedimento.

Quando foi adotada, no final da década de 1970, a medida tinha o objetivo de controlar o crescimento da população e facilitar o trabalho do governo, porque dar assistência médica e educação para mais 1 bilhão de pessoas é algo surreal. De acordo com estatísticas governamentais, foram evitados o nascimento de 400 milhões de bebês nesse período.

Esse tópico tem sido motivo de bastante dor de cacbeça ao governo chinês. Há quase 30 anos, que a China iniciou sua abertura política e econômica, muita coisa mudou no pais. Inclusive a voz dos jovens da geração pós Mao, que não concordam com todas as regras impostas pelo governo. E a questão do filho único é sempre motivo de protestos (dentro dos padrões de um governo comunista tentando abrir algum espaço para a manifestação popular). Por isso algumas excessões acabaram sendo autorizadas, mas isso causando mais polêmica e ambíguidade.

Na zona rural, pode-se ter o segundo filho, principalmente se o primeiro for menina. E, principalmente pela falta de informação, o número de crianças que nascem com deficiência, seja ela qual for, são abandonadas sem se pensar duas vezes.

Em Shanghai, devido ao custo de vida estar cada vez mais alto, um casal onde ambos forem filhos únicos, podem ter o segundo filho, quando o primeiro atingir uma certa idade. Acho que por volta dos 8 anos. Isso é baseado na cultura de se cuidar dos idosos da família de forma digna, e cada dia ficaria mais difícil para o jovem que tivesse que assumir o sustento de seus pais e muitas vezes dos avós.

Em Sichuan, na época em que houve o terremoto, que destruiu escolas em pleno período letivo, os pais que perderam ou tiveram os seus filhos gravemente comprometidos pelo acidente, puderam ter o segundo filho.

E assim vai, cada dia uma nova regra aparece. Mas não pensem que nesses casos acima, os casais simplesmente possam engravidar. Antes disso eles precisam ter uma certificação do governo que permite a eles a segunda gravidez.

 Resumidamente é isso o que ocorre na China. Quem não segue essas regras acaba sendo punido com severas multas, além de ter que custear toda a educação e saúde do segundo filho, que nesse caso é calculada pelo governo e tem que ser paga ‘in advance’, ou seja, antes da criança entrar na escola, por exemplo, toda a educação básica dela tem que ser paga.

Polêmica é pouco para esse assunto, mas quando a gente anda nas ruas e vê tanta gente, mas muita mesmo, ficamos imaginando se não houvesse essa lei como seria. Por outro lado quanta injustiça foi cometida por conta disso. Entender a questão de uma forma teórica é uma coisa. Aceitar na vida prática, principalmente se é a SUA vida, é outra bem diferente.

Fica aí para vocês pensarem… gostaria muito que o mundo, principalmente os países em desenvolvimento, encontrassem um meio termo. Algo mais inteligente, humano e menos agressivo. Mas é dificil. Os extremos sempre ganham força. A ponderação não é uma das prioridades pelo que vejo.

Zài Jiàn!

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