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Memórias e Pertencimento: Os Retornados de Xangai

Existem narrativas que não se encontram nos guias turísticos tradicionais ou nos manuais de história convencionais. Elas residem nas margens da sociedade, nos encontros fortuitos, nas jornadas silenciosas, nas existências que se situam entre dois mundos.

Essa foi a sensação que me acompanhou ao mergulhar na obra “Os Retornados de Xangai” de Antonio Caeiro. O livro nos conduz por um recorte pouco explorado: a presença portuguesa em Xangai durante períodos de grandes mudanças. Entre guerras, deslocamentos e questionamentos de identidade, somos apresentados a personagens reais que parecem pertencer e não pertencer à China, a Macau, a Portugal, ao passado, ao presente.

Caieiro tece essa trama com um olhar minucioso para os detalhes históricos, sem perder de vista a dimensão humana que dá sustento a toda grande narrativa. Sem depender de reviravoltas mirabolantes, a história se desenrola de maneira delicada, revelando trajetórias marcadas por movimento e adaptação através de textos curtos, que relatam um pouco da vida de cada pessoa e que juntos se tornam um grande registro da importância (ou não) que os portugueses tiveram na cidade.

É um relato que não apela para o exagero, mas se apoia na riqueza do contexto, nas nuances culturais e nas escolhas, muitas vezes silenciosas, dos seus personagens. É nesse ponto que o livro se destaca de forma singular.

A presença portuguesa em Xangai raramente é explorada nos relatos mais conhecidos. E olha que já li muitos livros que contam sobre os períodos da história relatados no livro, desde o fim do Império, a invasão do Japão, a Segunda Guerra Mundial e a instalação da República Popular da China e todas as consequências disso.

Enquanto a história moderna da China costuma ser associada a outras potências, conflitos e narrativas, este livro traz à luz um fragmento quase esquecido, com sensibilidade, sem a intenção de preencher lacunas históricas de modo didático, mas sim proporcionando ao leitor a oportunidade de vislumbrar esse espaço intermediário.

Durante a leitura, uma familiaridade inexplicável se fez presente. Não com os eventos em si, mas com a atmosfera. A sensação de estar em trânsito, de negociar identidades, de contemplar um país que se revela em camadas, fragmentos e momentos.

Após tantos anos vivendo na China, especialmente em uma realidade já profundamente transformada pela modernidade, ler sobre essa Xangai de épocas passadas foi como acessar uma lembrança que não me pertence, mas que poderia ser. Revisitar alguns lugares que me são familiares, seja por estudo da historia da cidade ou mesmo por andar pelas ruas e bairros citados. Por sinal, isso é uma coisa que sempre me encantou em Xangai: percorrer os caminhos da história que estão escondidos em cada esquina da cidade.

A cidade, agora símbolo de inovação e dinamismo, já foi palco de encontros improváveis, tensões culturais e reinvenções constantes. A noção de “retorno” que o livro sugere possui uma profundidade humana marcante. Retornar para onde exatamente? Para um país? Para uma versão de si mesmo? Ou para um lugar que já não existe mais? Esta indagação ressoa para além das páginas. Lembrando que muitos dos portugueses que nasceram e foram criados na China, não dominavam sua língua mãe, o português. A maioria era fluente em inglês.

E acho interessante ressaltar que esse livro me apareceu por acaso, numa busca que estava fazendo sobre um outro livro chamado “Os Retornados”, que conta a história dos portugueses retornados de Angola e Moçambique. Acabei protelando a leitura que motivou minha busca, para conhecer essa história que aguçou minha curiosidade.

“Os Retornados de Xangai” não se limita a retratar um momento histórico específico. É, acima de tudo, uma reflexão sobre pertencimento, deslocamento e memória. Sobre o que carregamos conosco e o que inevitavelmente deixamos para trás.

Ao final da leitura, percebi que havia explorado um canto pouco iluminado da história, mas também compreendi que são essas narrativas secundárias que frequentemente nos auxiliam a compreender o todo com maior profundidade.

Talvez esse seja o maior mérito do livro: nos recordar que a história não é formada apenas por grandes acontecimentos, mas pelas vidas que atravessam esses eventos de maneira silenciosa, complexa e profundamente humana.

Deixo aqui a sinopse do livro e a biografia do autor, tiradas da página da editora Tinta da China.

AS DESCONHECIDAS HISTÓRIAS DA ENORME COMUNIDADE PORTUGUESA QUE SE ESTABELECEU EM XANGAI EM MEADOS DO SÉCULO XIX

Mais de duas décadas antes de Portugal perder o seu império colonial, milhares de portugueses tiveram de abandonar a terra onde nasceram e onde esperavam continuar a viver. Mas, ao contrário dos retornados de África, os de Xangai não tinham uma metrópole para a qual voltar e muitos nem sequer falavam português.

«Euro‑asiáticos», «filhos de Macau» ou «luso‑orientais», foram dos primeiros estrangeiros a estabelecer‑se em Xangai, em meados do século XIX, e durante os cem anos seguintes constituíram uma das suas maiores comunidades. Viveram os efeitos da Guerra do Ópio, a queda de uma monarquia multimilenar, a ocupação japonesa, uma longa guerra civil, que terminou com a vitória do Partido Comunista em 1949, e a seguir voltaram a partir. Contribuíram para transformar a cidade numa grande metrópole internacional e, depois de terem saído, ajudaram a perpetuar o fascínio em torno da mítica Xangai dos anos 20 e 30.


António Caeiro

António Caeiro nasceu em Moscavide em 1949, filho de pais algarvios. Começou a trabalhar aos 16 anos, numa companhia de seguros. No dia 25 de Abril de 74 estava em Paris, exilado. Jornalista profissional desde 1975, com experiência na imprensa escrita e na rádio. Ingressou em 1978 na agência noticiosa portuguesa ANOP, antecessora da Lusa, onde trabalhou até ao Verão de 2015. Foi correspondente em Cabo Verde (dois anos) e depois em Pequim, onde viveu 19 anos. Colabora regularmente com o semanário Expresso. É autor de três livros sobre temas chineses: Pela China Dentro (2004), Novas Coisas da China (2013) e Peregrinação Vermelha (2016). Em 2018, com José Pedro Castanheira e Natal Vaz, publicou A Queda de Salazar: O princípio do fim da ditadura.

Para finalizar

Vou dividir com vocês uma citação do livro que me fez sorrir e deixar meu coração transbordando de saudade dessa cidade incrível que chamei de lar por tantos anos:


Xangai era «uma cidade livre, onde se podia entrar sem passaporte nem documentos de identificação», recordaria Margaret Gaan, Chamavam-lhe Paraíso dos Aventureiros. «Uma cidade bastarda», diria a jornalista sino-americana Helen Zia: «Demasiado ocidental para ser chinesa e demasiado chinesa para ser ocidental», Frederico A. Silva, um português de Hong Kong, autor de um livro sobre os «filhos de Macau» intitulado All Our Yesterdays — Todo o Nosso Passado, fazia esta comparação: «Hong Kong era inconfundivelmente colonial e britânica, Xangai era britânica, francesa, americana, russa, japonesa e chinesa e praticamente tudo o resto»

E assim é Shanghai até hoje: irreverente, única e inconfundível!

Existem aqui no blog resenhas de livros que se passam na mesma época, e que ajudam a entender melhor o cenário que esses portugueses viveram em Xangai, em especial no inicio do século 20.

E também esse sobre a participação de Macau na Segunda Guerra, escrito por um outro autor português.

Zái Jián!

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