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Livro: Adeus, China. O ultimo dançarino de Mao.

Faz um tempo que escrevi sobre livros que li a respeito da China, e essa falta de mais posts a respeito foi por absoluta distração. Realmente passou e na minha arrumação (que ainda não acabou), acomodando os livros, encontrei alguns dos quais ainda não escrevi. Esse, justamente, não estava entre eles. Por isso quis escrever agora, para não esquecer novamente. Li esse livro ainda no Brasil, logo que foi lançado. Um livro emocionante, apaixonado e mostra como um gesto, uma atitude de alguém, pode mudar a sua vida toda, sua história.

Li Cunxin, relata sua vida num pobre vilarejo do nordeste da China e o que aconteceu desde o dia em que sua professora apontou para ele, quando os ‘delegados culturais’ de Madame Mao foram à escola escolher algumas crianças para terem uma boa formação e defenderem os ideais de Mao no futuro. Foi levado com o grupo para Shanghai, sem saber exatamente o que iria fazer. Não me lembro exatamente em que ponto ele descobre que seria integrante do corpo de baile da Republica Popular da China.

O desespero e a alegria, a duvida sobre o futuro e a certeza que será bem melhor, a tranquilidade de ter boas refeições e o remorso de saber que a família passava fome, a inquietação por se tornar uma coisa que jamais sequer cogitou em ser: bailarino. Todos esses sentimentos se misturam na cabeça desse menino, do adolescente. Os intermináveis treinamentos que iam além da exaustão e possibilidades de seu corpo o tornaram forte.

O que já havia sido um presente do destino, pois desde o ultimo dia que viu sua professora no vilarejo, nunca mais soube o que era fome, o que era não ter uma cama ou um teto, foi mais além quando receberam a visita de bailarinos e diretores americanos que, impressionados com a técnica desenvolvida pelo grupo, apesar de só dançarem peças educativas da doutrina de Mao, levadas à risca e ao extremo pelo grupo da Madame Mao, mais conhecidos como Gangue dos 4, ofereceram algumas bolsas de estudo em Nova York para os que mais se destacassem dentro do corpo de baile.

licunxin

Claro que Li Cunxin foi um dos escolhidos e sem entender nada, novamente, foi colocado dentro de um avião rumo à América, não sem antes ter um forte e severo ‘treinamento’ sobre a doutrina de Mao e o quanto os Estados Unidos eram os vilões do mundo ocidental. Para um adolescente que nem sabia que existia um mundo inteiro além das fronteiras da China, a chegada nos país ocidental foi um choque. A maneira como ele descreve o que viu naquele trajeto do aeroporto ao hotel, foi uma das partes mais tocantes para mim em todo o livro.

Ele termina o curso, volta a China, mas após ter descoberto o que acontece do outro lado da fronteira, nunca mais foi o mesmo. Até que consegue novamente uma bolsa e não volta mais a sua pátria mãe. Mas muita coisa acontece nesse meio tempo. Os conflitos de uma mente doutrinada com a mente que enxerga a realidade. Um relato emocionante e que nos dá a dimensão, sem dramas nem esteriótipos, sem defesa politica ou de crença de uma pessoa que conheceu os dois lados da moeda.

Quando sua professora, apontou o dedo em sua direção ao membro do partido, jamais poderia imaginar o quão imenso foi seu ato. Cunxin é hoje uma celebridade nos Estados Unidos, amigo de presidentes e astros de Hollywood, mas não esqueceu por tudo o que passou e que, certamente, o tornaram mais forte.

Vale à pena ler esse também.

O filme… é bom sim. Bem feito, não foge ao livro. Mas omite muita coisa, fato que o torna morno, uma história de um desertor. O filme é tão superficial que foi liberado aqui na China. Quem leu o livro, os relatos de Cunxin, vai entender o que estou falando. Quem viu o filme, e leu esse texto que acabei de escrever, deve estar se perguntando de onde eu tirei tanta emoção da chegada dele à América ou do remorso e desespero dele ao comer todos os dias e saber que a família estava fervendo casca de árvore para tentar simular uma refeição e se manter viva.

Divirtam-se!

Zài Jiàn!

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4 pensamentos sobre “Livro: Adeus, China. O ultimo dançarino de Mao.

  1. Amei esse livro, por seu relato que retratando o que deve ter sido a vida real de tantos chineses naquele momento, e talvez agora ainda, nos traz uma enchurrada de emoções. Hoje ainda,cada vez que vejo um video compartilhado de bailarinos ou ginastas chineses não posso deixar de pensar que eles podem ter sido torturados desde a tenra infancia para chegar aquele nivel de elasticidade e habilidade…… ja nao me parece belo, parece fruto da dureza e da insensibilidade para com crianças. As pessoas como produto de uma fábrica desesperada por vender algo para o exterior. Espero que não seja mas assim,mas suspeito que sim infelizmente….

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    • Oi Juliana,
      Na realidade acho que não é tão radical assim hoje em dia. Mas a necessidade de mostrar a perfeição do povo asiático (chineses, japoneses e coreanos) vai além do que achamos razoável. As crianças aqui tem que fazer várias coisas, atividades extra-classe e quando são definidas para uma arte, seja ela qual for, tornam isso sua vida e sem medir esforços.
      Abraço.

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