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O que realmente importa

Um balanço de vida!

Desde muito pequena, minha vida foi rodeada por mudanças. Casa, bairro, cidades, estado. Quando sai da casa dos meus pais, aos 21 anos estava completando minha 11° mudança. Hoje tenho na lista 17.

Comecei meu texto com essa divagação, pois em cada uma dessas mudanças, de alguma forma, eu precisei me reinventar, me reedificar.

Até mesmo aos 12 anos, quando voltei do Paraná, na fase da explosão de hormônios e onde tudo parecia se desmontar, tive que redescobrir minha cidade natal e a mim mesmo.

Aos 21 mudei novamente de cidade, e aos 35, após uma separação, reiniciei, mesmo sem ter consciência, a rotina de não ficar em lugar algum por muito tempo.

Percebi que depois de mudar, mesmo sendo uma migração dentro do nosso próprio país, ou de casa dentro da mesma cidade, passamos a não pertencer a lugar algum e a todos os lugares ao mesmo tempo. De cada local, de cada casa em que vivi, trago varias lembranças únicas e especiais que marcaram fases diferentes da minha vida.

Tudo era igual. Tudo era diferente.

Eu era a mesma, mas tinha experiências que nem todos entendiam.

Casei novamente e, quando achei que já havia feito tantas mudanças quanto minha imaginação poderia florear, passado por tantas experiências, casas, ruas, bairros, cidades e amigos. Quando achei, no alto dos meus quase 45 anos, que nada mais mudaria na vida, eis que o inimaginável aconteceu…

A China entrou na minha vida

E assim, sem esperar tive que repensar tudo, minhas certezas, minha carreira, minha rotina, meu próprio eu.

Sim, porque uma mudança por si só já causa um choque imenso, imaginem uma mudança para o outro lado do mundo, numa época em que nem os smartphones eram acessíveis.

Já escrevi isso em algum lugar, mas sempre vale recordar: se em 2004 me dessem um cartão de crédito ilimitado para desbravar o mundo, a China jamais seria meu destino.

2005 – China, aqui estamos nós! Aeroporto de Chang Chun

Só que a vida nem sempre tem lógica e, muitas vezes, nossos maiores medos se tornam realidade. O que mais negamos vem à tona para aprendermos a conviver com isso.

Assim, em 2004 recebemos nosso cartão de crédito, com limite e destino certo: China.

Um projeto de aproximadamente 6 meses trouxe meu marido para a terra do dragão, um lugar, naquela época, completamente desconhecido e com pouquíssimas fontes de informações, principalmente em português.

Ele voltou ao Brasil, mas 2 meses depois, retornou à China por mais 4 meses. Pensei: agora é a hora de eu conhecer esse país “exótico”, afinal quando teria outra oportunidade na vida de atravessar o mundo? A intenção era que eu viesse no final desse projeto e voltássemos juntos ao Brasil.

Só que o destino, esse menino brincalhão, nos mostrou que podemos planejar nossa vida até um certo ponto. Nesse meio tempo entre minha viagem e o final do projeto, meu marido recebeu um convite para ficar na fria Chang Chun, com um contrato de um ano.

Resumindo, voltei sozinha, atordoados ainda que estávamos com a nova situação completamente inusitada. Não havia condição de ser diferente naquele momento, a cidade fica no norte da China, temperaturas alcançado os 28 graus negativos e sem escola internacional para os meninos.

Por ser somente um ano, achamos que poderíamos levar assim. Só que de fato, meu marido nunca mais voltou a trabalhar no Brasil.

Ficamos até 2008 na “ponte aérea” Brasil-China e, quando a situação estava insustentável e decidimos que essa brincadeira tinha que acabar, veio a proposta de mudarmos com toda a família para Shanghai, o paraíso terrestre (na China) para os estrangeiros. E lá fomos nós, de mala, cuia e filhos para a segunda etapa da nossa aventura no país do meio.

E foi aí que realmente eu tive que me reinventar.

A dura etapa da transformação

Janeiro de 2009, deixamos o Brasil, aterrissamos em terras chinesas. Do verão de 40 graus para 5 graus negativos em menos de 48 horas.

Assim começamos, excitados e assustados com as novas possibilidades. Tudo novo, diferente, um idioma que nos assustava e nos divertia ao mesmo tempo, ríamos e chorávamos, mas estávamos juntos.

Passado o primeiro mês, casa montada, crianças na escola, marido feliz, afinal agora a família estava reunida, me vi sozinha num lugar estranho, falando muito pouco inglês (não que isso fosse adiantar muita coisa) e absolutamente nada de mandarim, sem amigos, referências e um vazio imenso no peito.

O que fazer com meu dia? Como criar uma rotina sem ter horários; obrigações, sem ter emprego. Sim, porque a vida sem um trabalho remunerado jamais fez parte dos meus projetos. Nada fazia sentido, nada se encaixava, por onde começar?

Foram muitas manhãs, sentada nos degraus da escada, quando via todos saírem para sua rotina, e eu chorava e me perguntava: e agora? Foi dolorido, sofrido, mas a vida segue e a gente não pode deixar a peteca cair.

Comecei a escrever e-mails para o Brasil contando um pouco da nova vida. E muitos me questionavam porque eu não colocava esses relatos num blog, já que as histórias eram muito divertidas e interessantes.

Pensei, como assim? Eu escrever para o mundo ler? Pessoas que nem conheço? Quem vai gostar de ler o que tenho a dizer? Iniciei e apaguei varias vezes, vários textos, blogs, rascunhos e decidi que não era isso.

O tom que eu dava aos artigos era triste e melancólico e, definitivamente, essa não era eu. Faz muito tempo em minha vida que aprendi a sempre ver o lado bom das coisas, a tirar alguma lição positiva da situação mais complicada, mas naquele momento, por mais que as aparências deixassem as coisas num tom neutro, estava difícil me convencer de que tudo ficaria bem.

Entre trancos e barrancos passamos o primeiro ano, tentando equilibrar as dificuldades do dia a dia, do idioma, da cultura e da adaptação de filhos adolescentes, que num determinado momento perceberam que a aventura era a vida real.

Ficamos quase dois anos sem ir ao Brasil. E quando fomos tudo foi uma festa. Minha família, para facilitar nossa vida, resolveu fazer uma reunião e chamar todos que conviviam conosco antes da mudança. Hoje, posso dizer que esse foi o maior presente que ganhei.

2010 – nossa primeira visita ao Brasil.

Naquele dia percebi que o essencial da minha vida no Brasil eu não havia perdido, muito pelo contrário. O amor, a amizade, o vínculo emocional com as pessoas queridas estavam ali, a energia daquele dia foi o grande marco da minha reedificação.

Voltei para China, mais leve, feliz. Percebi que as experiências quando bem trabalhadas só somam à nossa história de vida, ao nosso crescimento. Voltei e decidi que sim, iria começar a escrever sobre as descobertas que havia feito, as que estavam por vir e, em especial, iria desvendar um pouco dos segredos da China para esse meu círculo de amigos e familiares curiosos.

Até onde se pode chegar?

Na minha ignorância sobre o alcance da internet, de passar de consumidora para provedora de informação, me assustei com a quantidade de mensagens que comecei a receber. Como assim?

E aquilo me incomodou porque havia começado o blog numa plataforma gratuita, sem pretensão, e, definitivamente, aquela página não tinha a minha cara. Era como se estivesse mostrando ao mundo o meu caderno de rascunho.

Comecei a buscar opções, contratei uma profissional que desenvolveu a imagem do blog, e me fez repensar todo o objetivo desse meu “diário de vida na China”.

Tive que aprender o inglês antes do mandarim. Precisava me comunicar no círculo que frequentávamos, escolas e hospitais internacionais. Quando me senti mais segura no idioma encarei um MBA no assunto que havia se tornado meu objetivo de vida: cultura chinesa.

Por conta disso, iniciei uma fase de palestras no Brasil, desvendando essa cultura tão diferente ao ocidente. O blog cresceu e se tornou uma referência em português sobre a cultura chinesa. Sem nenhuma pretensão acadêmica, consegui mostrar que chinês não come cachorro (com algumas ressalvas) e que a cultura deles tem todo um significado intrigante e apaixonante.

Descobri que as pessoas tinham prazer em ler meus textos e desvendar a China junto comigo.

Percebi, não sem ficar assustada, que estava ajudando muitas pessoas a superar o choque da mudança, a dificuldade de adaptação, a coragem de mudar e aceitar o desafio da China na vida de cada um.

Cada mensagem era uma injeção de ânimo e a certeza que não poderia desistir. Sim, muitas vezes me passou pela cabeça desistir, que não fazia sentido escrever, que isso não me levaria a nada.

A China não é para sempre

E diferente de vários outros países, a China não é para sempre. Ela não te dá cidadania e sua permissão de viver no país tem que estar vinculada a um contrato de trabalho ou estudo, com regras cada dia mais restritivas. Assim estamos percebendo que nosso tempo aqui está terminando.

E aí me bateu um sentimento de que algo estava faltando, eu precisava de alguma coisa concreta, materializada, que pudesse me convencer que havia feito algo para minha vida. Que toda essa mudança, essa reedificação, não foi em vão.

Assim nasceu o livro que resume tudo o que aprendi com o Dragão.

Ver o seu trabalho exposto numa livraria, não tem como explicar….

Sei que ele é somente a ponta de um iceberg, que nem tenho ideia do tamanho real. Mas está lá, meu prêmio, meu troféu, minha vida resumida em letras e papel.

Mais do que os textos publicados, o que faz sentido mesmo são as entrelinhas, o que nenhuma palavra pode descrever, o que nossa alma aprende e compartilha, o que realmente importa na vida: nossa vontade de renascer, quantas vezes forem necessárias.

Um esclarecimento

A ideia desse texto não surgiu do nada. Ele foi escrito em 2019, e integra a “Coletânea Reedificações – Histórias de Mulheres que se reinventaram pelo mundo”, onde o objetivo é de mostrar que temos uma força que muitas vezes desconhecemos. Assim, reuniu mulheres que contam um pouco da sua história, de como venceram o processo de adaptação, para incentivar outras mulheres a buscar seu caminho, se encontrar frente a nova realidade.

Naquele momento, e nem quando o livro foi lançado em dezembro do mesmo ano, eu não tinha a noção de quanto essa afirmação que coloquei como título do texto seria tão significativa nas nossas vidas hoje, em 2020, o ano que está nos fazendo repensar e reavaliar todos os nossos valores, prioridades, nos reinventar e realmente ponderar o que realmente importa nessa vida!

Hoje sabemos que um abraço apertado pode valer mais que mil presentes bem embrulhados. E chorar de felicidade é sim, uma forma de gratidão.

Zái Jiàn!

13 pensamentos sobre “O que realmente importa

  1. Como uma pessoa que conheço só através da tela do celular pode fazer tanta diferença na minha vida, como sua alegria, seu otimismo pode mudar meu dia, o dia que não vejo os stories parece que faltou aquela pitada de otimismo, obrigada por sem me conhecer ser uma amiga que nem sabe que é,conselheira que nem sabe que me aconselhou, que me animou naquele dia difícil e agora com esse corona vírus tem tido vários e nem faz ideia que fez toda diferença. Obrigada Cris pelo seu tudo vai passar, como me dá esperança, me dá esperança de um dia poder abraçar de novo e vc ser uma dessas pessoas que vou dar meu abraço e dizer obrigada por tudo.

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    • Adriana,
      Claro que rolou um cisco imenso nos meus olhos…
      Eu que agradeço a vc e a todos que fazem parte desse circulo especial que me trouxe até aqui.
      Sem palavras para manifestar minha gratidão.
      E logo logo poderemos sair nos abraçando e percebendo tudo o que aprendemos nesse período tão complicado pelo qual o mundo está passando.
      Um abraço muito apertado!

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  2. Amo seus textos, seu blog, seu Instagram e os storys diários. Sou muito grata por encontrar um lugar tão completo para ler sobre a China. Sou grata imensamente pela ajuda e esclarecimentos que deu para que eu reunisse a documentação certa para casar na China. Fiquei muito triste quando não consegui ir à Xangai lhe ver! Espero que em uma próxima ida à China eu consiga lhe agradecer pessoalmente! Admiração total por ti! Grande beijo 💋

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  3. Amo suas histórias.
    Morei dois anos em Beijing,e deixei meu filho para o Dragão,rsrs.
    Faz 10 anos que ele ficou e hoje com o esforço,coragem e determinação está trabalhando em uma grande starup da China.

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  4. Christine, que texto mais lindo! Me arrepiei! Gratidão pela partilha, por mostrar esse dom de escrever ao mundo!
    Eu estive em Shanghai em Nov/2019, jamais imaginei (imaginamos) que em 2020 tudo isso aconteceria..
    Eu trabalho há 12 anos com comércio exterior no Brasil (mais especificamente com a China), e após a minha visita (a turismo, pq sim! já que nunca tive a oportunidade de ir a trabalho, eu senti muito o chamado de ir turistar), a minha visão de China “mudou” completamente!
    Honro a tua história, honro a China! Um abraço, Sabrina

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