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Livro: Balzac e a Costureirinha Chinesa

Faz algum tempo que tinha a curiosidade de ler esse livro, mas nunca acontecia de ter acesso a ele. E aí, fui a biblioteca a procura de um livro (que não estava disponível, por sinal) e ao sair, dou de cara com esse exemplar numa mesa onde costumam colocar sugestões de leitura. é o destino, não é? Voltei e peguei emprestado. E confesso: li num final de semana. Porque chegou num ponto que não dava para parar… E é um livro curto, 168 páginas. Enta6o, vamos ao que interessa:

Sobre o livro

Ler Dai Sijie é mergulhar em um paradoxo: ao mesmo tempo que testemunhamos a crueza da reeducação nos campos da China rural, somos envolvidos por uma delicadeza quase lírica.

A história dos dois jovens intelectuais “reeducados” em uma montanha remota nos lembra que, mesmo sob privação extrema, a imaginação humana é indomável.O Despertar pela PalavraO ponto central aqui não é apenas a sobrevivência física, mas a metamorfose intelectual. Quando os protagonistas descobrem uma maleta repleta de clássicos ocidentais, proibidos pelo regime, a narrativa ganha uma nova camada de cor. Balzac, Flaubert e Dumas não são apenas nomes em capas de livros; eles se tornam janelas para um mundo onde o sentimento individual e a beleza têm valor próprio.

A Costureirinha: De Ouvinte a Protagonista

O que mais me cativou nessa leitura é o arco da Pequena Costureirinha. Frequentemente, a literatura é vista como algo que “ensina”, mas aqui ela atua como um catalisador de autonomia. Ao ser exposta aos dramas e desejos das heroínas europeias, ela percebe que sua própria identidade não precisa estar limitada às fronteiras da montanha afastada onde vivia ou às expectativas da época.

O tom de Sijie é coloquial, quase como uma história contada ao pé do fogo, mas carrega uma carga culta e histórica essencial. É um lembrete vívido de que a cultura não é um luxo, mas uma ferramenta de libertação.

A literatura é o prazer de descobrir que o mundo é muito maior do que o quintal onde fomos plantados.”

Resenha da editora Companhia das Letras

“Ambientado durante a Revolução Cultural na China, Balzac e a costureirinha chinesa é um romance sobre a descoberta da literatura em tempos de repressão.

Balzac e a Costureirinha Chinesa é uma crônica da vida na China durante a revolução de 68. Um romance sobre a felicidade da descoberta da literatura, a liberdade adquirida através dos livros e a fome insaciável de ler numa época em que as universidades foram fechadas e os jovens intelectuais mandados ao campo para serem ‘reeducados por camponeses pobres’.

Entre os que tiveram de abandonar as cidades está o narrador de Balzac e a Costureirinha Chinesa e seu melhor amigo Luo. O destino deles é uma aldeia escondida no topo de uma montanha. A vida não é fácil para a dupla mas com muita coragem, senso de humor, uma forte imaginação e a companhia da Costureirinha – a menina mais bela da região – o tempo vai passando. Até que descobrem uma mala repleta de livros banidos pela Revolução Cultural. As obras, sobretudo Ursule Mirouët de Balzac, desnudam aos adolescentes uma realidade que nunca haviam imaginado – é por intermédio do mundo novo além das fronteiras chinesas e dos grandes mestres da literatura que o narrador Luo e a Costureirinha compreendem que suas vidas pertencem a algo muito maior.”

NOTA: eu li a edição portuguesa, por isso a capa é diferente da que está no link da editora brasileira.

Sobre o autor

Além de seu grande sucesso de estreia, Dai Sijie (戴思杰) manteve a temática da intersecção entre a cultura chinesa e a ocidental em suas obras posteriores. Como ele vive na França desde os anos 80, seus livros costumam ser escritos originalmente em francês, o que confere a eles um estilo muito particular, uma mistura da estrutura narrativa europeia com a alma e o folclore da China.

Outros títulos de Dai Sijie

  • Era uma Noite Sem Lua (Le Complexe de Di): Vencedor do prestigiado prêmio Femina em 2003, este livro narra a jornada de um jovem que retorna à China para procurar um dicionário antigo e raro, mas acaba se envolvendo em uma busca pela identidade e pelo passado de seu país. É uma obra que explora a psicanálise (o título original faz referência ao Complexo de Édipo) sob uma lente chinesa.
  • Três Vidas de uma Só Noite (Par une nuit de lune): Nesta obra, Sijie utiliza uma estrutura quase de “quebra-cabeça”. O livro segue um linguista francês fascinado por um manuscrito budista perdido. É uma leitura densa, erudita e cheia de simbolismos sobre a linguagem e a espiritualidade.
  • As Filhas do Botânico (Les Filles du botaniste)Originalmente concebido como um roteiro de cinema (que ele mesmo dirigiu), conta a história de um amor proibido entre duas mulheres em uma ilha isolada no sul da China, nos anos 80. É um livro visualmente rico, focado em botânica e na repressão emocional.

Antes de ser escritor, Dai Sijie formou-se em cinema. Por isso, a maioria de seus livros possui adaptações cinematográficas dirigidas por ele mesmo. Se você gostou do tom de “Balzac”, recomendo assistir ao filme homônimo de 2002 , que traz a mesma atmosfera poética do livro.

O próprio autor, Dai Sijie, foi quem dirigiu o filme. Isso é muito raro e garante que a adaptação seja extremamente fiel à “alma” e ao tom lírico que ele imprimiu no papel.

Encontrei uma versão do filme no YouTube, com legenda em português para quem ficou curioso.

Um detalhe que torna essa obra ainda mais especial é saber que o próprio Dai Sijie transpôs sua história para as telas. Ver o autor dirigindo a adaptação de seu livro é como fechar um ciclo: a mesma sensibilidade que lemos nas páginas ganha luz e cor no cinema.

Embora o filme seja uma obra por si só, ele é o companheiro perfeito para quem, como eu, terminou o livro com um suspiro e o desejo de permanecer mais um pouco naquelas montanhas da China.

E você? Prefere descobrir a história primeiro pelas páginas ou pelas telas?

Zái Jián!

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