Voltar a Jung Chang depois de Cisnes Selvagens é como reencontrar uma história que nunca terminou.Não porque falte conclusão, mas porque há feridas que não se fecham, apenas aprendem a conviver com o tempo.
Em Voai, Cisnes Selvagens – a minha mãe, eu e a China, Jung Chang retoma a própria trajetória e, sobretudo, a relação com a mãe, aprofundando as marcas deixadas pela Revolução Cultural não apenas como evento histórico, mas como experiência íntima, psicológica e duradoura.

Se Cisnes Selvagens ajudou o mundo a compreender a China do século XX por meio de três gerações de mulheres, este novo livro desloca o foco: aqui, o passado não é explicado: ele é sentido. Não se trata de uma repetição nem de um apêndice. Voai, Cisnes Selvagens é um livro mais silencioso, mais contido e, por isso mesmo, mais perturbador.
A narrativa acompanha o impacto da perseguição política, da violência ideológica e da desilusão revolucionária sobre duas vidas entrelaçadas: mãe e filha. O que está em jogo não é apenas o que aconteceu, mas o que permaneceu depois, nos gestos, nos medos, nos silêncios.
A mãe de Jung Chang surge como eixo moral e emocional da obra. Primeiro, como alguém que acreditou profundamente no projeto revolucionário; depois, como vítima do mesmo sistema que ajudou a construir; e, por fim, como mulher obrigada a reorganizar a própria identidade em um mundo onde lembrar pode ser perigoso. É um retrato poderoso de como regimes políticos não moldam apenas sociedades, mas subjetividades.
Diferente de Cisnes Selvagens, este é um livro menos preocupado em contextualizar o leitor e mais disposto a exigir escuta. Não há pressa nem concessões. A dor não é dramatizada; ela é acumulada. A leitura pede pausa, maturidade e disposição para o desconforto.
Como alguém que viveu muitos anos na China, é impossível não reconhecer, nas entrelinhas, comportamentos e atitudes que ainda hoje atravessam a sociedade chinesa: a dificuldade de falar do passado, o cuidado extremo com as palavras, a herança de um medo que não se ensina, mas se transmite. A Revolução Cultural, neste livro, deixa de ser um capítulo da História para revelar-se como um trauma coletivo ainda em elaboração.
Uma pergunta inevitável é se é preciso ter lido Cisnes Selvagens antes. A resposta honesta é: não é obrigatório, mas faz diferença. O livro funciona de forma independente, mas ganha profundidade quando lido como continuação emocional de uma história que o mundo já conhece. É como ouvir, anos depois, aquilo que antes não podia ser dito.
E vou mais longe: vale a pena ler a biografia de Mao, da mesma autora, antes do primeiro ou, pelo menos, entre um e outro. Apesar de haver alguma controvérsia sobre a narrativa do livro, pelo envolvimento emocional de Jung Chang, acredito que facilita demais o entendimento dos últimos 100 anos na China. Vou deixar a resenha dos dois livros no final desse texto.
Voai, Cisnes Selvagens não é um livro para quem busca explicações rápidas sobre a China. É para leitores interessados em memória, em relações entre mães e filhas e nos efeitos prolongados da violência ideológica sobre vidas comuns. Não oferece conforto, mas nos brinda com compreensão.


Possui muitas fotos que ilustram a trajetória de Jung na China e fora dela, suas conquistas e recordações. É um livro que vale a pena para entender alguns pontos de uma época que não se ousa lembrar.
Mais do que falar do passado, Jung Chang nos lembra que certas histórias continuam vivendo dentro das pessoas , mesmo quando o mundo insiste em seguir em frente.
Agradeço à editora Quetzal por enviar um exemplar da edição portuguesa. Foi um presente que me deixou extremamente feliz por poder divulgar essa obra, que será lançada no Brasil ainda no primeiro semestre de 2026.
Sinopse da editora
Cisnes Selvagens, publicado originalmente em 1991, marcou uma geração. Era a história pessoal épica de Jung Chang, da sua mãe e da sua avó «três filhas da China». O livro começa com o nascimento – e o enfaixamento dos pés – da sua avó em 1909, quando a China ainda vivia no império, e acompanha o período de Mao e a Revolução Cultural, quando os pais de Jung foram sujeitos a provações dolorosas. Termina em 1978, quando a era Mao terminou oficialmente e Deng Xiaoping deu início ao tempo das «reformas».
Quase meio século depois, a China passou de um país pobre e de um Estado decrépito e isolado a uma potência mundial, desafiando a posição dominante dos EUA. Ao longo destas décadas, a vida de Jung esteve intimamente ligada à sua terra natal. As suas experiências nesses anos foram ricas e complexas – tanto mais que todos os seus livros foram (e são) proibidos.
Este livro é a continuação de Cisnes Selvagens e atualiza a história da família de Jung — e também a da China. De certo modo é uma carta de amor de Jung à sua mãe. Inevitavelmente, fala também da sua avó e do seu pai, ambos mortos tragicamente na Revolução Cultural.
A China encontra-se agora noutro momento decisivo: o presidente Xi Jinping procura fazer com que o país regresse aos velhos tempos maoístas e construir um Estado comunista com características capitalistas. Esta nova era Xi está a afetar profundamente a vida de Jung e a da sua mãe. Ao longo das vidas de ambas, ela oferece um relato complexo, intenso, profundamente comovente e inesquecível do que é viver numa ditadura comunista e das ameaças que a China moderna representa para a ordem mundial. Tudo contado como a história de uma família.
Boa leitura!
Zái Jián!